Conto – A Outra Margem

O velho cofia a barba olhando para a outra margem. Tem os pés descalços, saboreando a areia quente ainda ao sol. O calor picado que lhe sobe as pernas, trepa espinha arriba, e instala nos ombros caindo regaladamente pelo corpo, é uma pequena delicia para os sentidos, pois nos dias que correm há poucas coisas que lhe saibam assim bem. Os olhos fecham-se momentaneamente. A mão esquerda abre-se sem querer, deixando cair o estranho livro. Assarapantado, o velho apoia-se na boca do canhão que está ao lado, baixa-se, apanha o volume. Sacode-o e senta-se na areia. Antes de pegar na leitura, fica pensativamente a ver o vapor a afastar-se, partido de Almada. Não poucas vezes, como agora, o Tejo tem das cores mais lindas que já viu na vida.

Vieram ter com ele dois dias antes ao fim da tarde. Quem teria acreditado que ele, Augusto Quarteira, 60 anos de velhice rija e firme, viria a estar ali sentado e pronto como um magala? Era uma história bem fantasista, a da visita daqueles rapazolas mal vestidos que aparecendo-lhe em bando à porta de casa, queriam a toda a força chegar à palavra com ele. Não lhe apetecera. Nada tinha contra gente jovem, mas conhecia algo do mundo e temera roubo ou violência. Mas o sol estivera melancólico nesse dia, a solidão apertara, e como as conversas desfiam os seus rosários quando se gosta de falar, Augusto acabara por convidá-los a entrar.

Quiseram explicar-lhe algo de complicado. Falaram muito, nos modos esquisitos deles. Augusto não percebera grande coisa. Até lhe passarem o livro para as mãos. Na sua casa havia poucos livros, mas havia. Era daquelas pessoas que por pouco que tivessem, venerava a escrita, a sabedoria. Passara portanto os olhos na lombada fina, estranhando o cartão da capa, mas após passar a vista no título não resistira a ler. Aliás, os rapazes fizeram questão disso, acomodando-se quietos em torno da mesa.

Passou-se uma hora, com o sol a revirar as sombras, ele acabando por ter de acabar à luz do azeite. Um fresco maninho e Fevereiro entrara-lhe nos ossos. Acabada a leitura do livro, para Augusto não tinham restado dúvidas sobre o que deveria ser feito.

Desemperrara as pernas, sacudira os bestuntos, esfregara as mãos. Raio de coisa Deus lhe haviam reservado para o fim da vida.

Uma frase que um dos rapazes dissera então, ficara-lhe gravada na ideia: o destino somos nós que o fazemos.

– Com a ajuda de Deus – juntara ele, e ninguém o negara. Mas como aquilo lhe agradara! Sempre acreditara que um homem se faz na vida, mais do que é feito por ela; se assim não fora, ter-se-ia matado há muito, ou pelo menos quando Maria Teresa, seu amor único e total e agora etéreo, morrera. Tinha agora uma oportunidade de mudar a vida, de evitar o desastre dos futuros. Lera-os e tremera; lera-os e ficara horrorizado. Tantas as vias do horror e uma só para remediá-las. Os rapazes por fim disseram-lhe estar tudo preparado, que descesse à praia, a que horas e dia e o que encontrar.

Lenta e repousadamente, a coberto do metal rude do canhão, Augusto ateou fogo ao livro. As chamas começaram por consumir a última parte do título – apropriadamente e por esta ordem: o ponto de exclamação, o “existiu”, o “nunca”, e por fim “A República”. Com o toco de baixo, onde a mão ainda tapava o nome do responsável pela obra, nome esse que haveria de trazer pesadelos a Augusto por muito e muito tempo, ele pegou fogo à mecha no topo do canhão.

Fumo e silvado. Um cheiro a cordite que lhe trouxe memórias de outras andanças, de outras pelejas. Augusto tivera uma vida bem preenchida; algumas guerras, muita luta e muita canhoada. Sabia bem o que fazer. As águas estavam calmas; não havia vento. A pontaria seria certeira, como sempre. O barco com a família real afastava-se na preparação de atracar, lá bem ao longe, mas a bala lá chegaria disparada assim rente, e a visão dela a ressaltar na água até ao embate daria um enfeite bonito. Depois disso, toda aquela corja de sanguessugas do povo iria ao fundo, e as profecias do livro não se cumpririam. Augusto horrorizara-se com o futuro, e disparava por isso.

À luz quente daquele fim de tarde de Fevereiro, com o Tejo azulão de vida e Lisboa ao fundo branca e doce, o canhão disparou.

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