Concursos Literários – Papiro Editora

Vagueando pelo site da APEL, de quem temos ouvido falar a propósito das próximas Feiras do Livro, deparei-me com umas sucintas e manifestamente pouco úteis e incompletas informações sobre concursos e prémios literários da nossa praça. Seria de pensar que uma associação de editores e livreiros tivesse alguma maior preocupação com este tipo de coisas, mas enfim, já estamos todos habituados à forma como as coisas se passam no nosso burgo.
 
Mesmo assim, interesse-me pelos concursos ainda em aberto, e deparei-me desde logo com um concurso de aspecto generalista, promovido pela Papiro Editora, que recaia tambem nas modalidades de Conto e Poesia. Até há pouco tempo não conhecia a existência da editora, e travei esse conhecimento quando me foi dada a oportunidade de criticar um livro de género fantástico. Mas nada me fazia esperar as duas pérolas que encontrei no regulamento do dito concurso.
 
Passando por alto o facto de o prazo para entrega de textos terminar a 30 de Abril (em vã ideia de juntar uns contos e enviá-los in extremis), lí com atenção todos os artigos e em especial os seguintes (que aproveito para sublinhar em certas importantes partes):
 
«7. Para a categoria CONTOS, o valor de cada inscrição é de 50 €, podendo o autor inscrever
até 2 (dois) textos por inscrição. Para a categoria POESIA, o valor de cada inscrição é de 30 €
podendo o autor inscrever até 2 (dois) textos por inscrição. Os valores devem ser depositados
a favor de PAPIRO EDITORA, no banco (…)
 

12. Para cada Categoria (Contos e Poesia) o prémio será a publicação do texto em livro. Os
textos premiados, inclusive os que forem agraciados com menção honrosa, serão publicados
em livro (sem ónus para seus autores) e cada um destes autores receberá dez exemplares, em
troca do que cedem os direitos autorais apenas para esta edição específica que não poderá
ultrapassar a tiragem de 1.000 (mil) exemplares. Os exemplares desta edição serão distribuídos
por livrarias, por bibliotecas e escolas públicas.»
 

Mas que raio de coisa.
Se esta moda tão em voga por outros países pega por aquí, de certeza que muita coisa vai mudar. E não para melhor.
50€ para pagar a este senhores de modo a que eles façam o trabalho que deveriam fazer? E quantas pessoas neste país se podem dar ao luxo de dispender desta quantia? Principalmente se pensarmos que o retorno é practicamente nulo? E claro que convidam as pessoas a submeterem trabalhos várias vezes…lindo. Uma pessoa esfalfa-se a trabalhar, a subtrair horas à vida, à familia, ao emprego, à sanidade mental, e ainda tem de alimentar a sede de lucros desta malta? Para ser publicado numa pequena editora sem grande exposição no mercado? Para dizer olha já saí em livro…
 
Pode ser legal, mas é imoral.
 
Não é por aqui que ganham boa fama ou bons escritores. E quem lá for parar deve "dar às da vila-diogo" assim que puder. Claro que tambem não se importarão com isso, pois haverá sempre quem esteja disposto a dar o dízimo, a fazer o sacrifício, etc.
E pelo que já li num fórum qualquer, parece que há por aí mais editoras a fazer disto. Para nem referir no facto de que muitas vezes a publicação dos autores só é feita com recurso ao abandono dos respectivos direitos por parte do autor, como neste caso. Digamos que o negócio é sempre lucrativo. 
Mas porque carga de água é que um autor há-de prescindir dos seus direitos? A não ser por motivos de escolha pessoal, não vejo legitimidade moral para o solicitar. Pode haver motivos económicos de cariz comercial e respeitantes ao possivel funcionamento da editora enquanto empresa, mas meus senhores…se não podem dispender uns tostões com algo que lhes dará bem mais dinheiro, não se metam nestas andanças.
 
Isto é um país para os espertos e para as negociatas, todos o sabemos, faz parte da pseudo-"alma lusitana". Mas nem toda a gente gosta disto meus caros. Eu cá, nem quando me cheira ao longe.
Claro que a vida e a história tambem nos "ensina" que mais vale estar calados do que protestar contra certas coisas…pelo que tomem lá esta minha opinião e façam o que bem entenderem; eu cá farto-me de certas coisas até quando hipotéticamente não posso.
E olha, esta saiu-me.

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4 responses to “Concursos Literários – Papiro Editora

  1. Por acaso publiquei um livro com eles. Gostei do teu "artigo", e realmente, cheira-me a ridículo esse concurso…

  2. Espero que a tua experiência com eles tenha sido boa.
    O problema é que há demasiados factores contra a normalidade profissional do ser-se escritor. Pagar para exercer uma actividade e ver toda a gente (menos o escritor) que pega nessa actividade a ganhar dinheiro com isso…algo não está bem, não é?
    Por outro lado, espero que algo de bom saia no concurso. Mas vou sempre ficar com os 50€ entalados na garganta…

  3. Pois..Marketing do do fura-olhos… Pimenta nos olhos dos outros é refresco.tenho vários livros escritos, mas só as loiras de olhos claros é que conseguem fazer auê nesse mercado também…E olha que Camões realmente ficou sem um dos olhos..

  4. bom, falando um pouco a sério, o certo é que ser escritor em Portugal ou em qq lugar do mundo não é pêra-doce. Espertalhices há em todo o lado e com toda a gente. Mas se ninguém abre a boca, também ninguém fará algo. De resto, ainda vão aparecendo boas vozes. De uma forma ou outra, aparecem boas surpresas. Com jeito vai…

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