Escrita Criativa

Parece que há por aí vários cursos de escrita criativa.
Pelo que tenho visto, e de uma cursória análise, os seus programas versam essencialmente sobre ensinar capacidades discursivas aos seus participantes. Nomeadamente através de exercícios baseados em constrangimentos logico-discursivos ("escrever um texto sem a letra N", "usar numerais sequenciais de 1 a dez num texto", etc.).´É ir a uma livraria e consultar alguns dos manuais que já por aí vão havendo, de autoria nacional.
Do que tenho lido, há uma certa percepção de que esta fórmula de ensino funciona mas que a escrita "por fórmulas" não funciona (para este e outros exemplos, vejam alguns dos artigos na Revista Noesis aqui); de que a imaginação é a fonte de toda a boa literatura; e ainda de que os clássicos de alguma forma afastam as pessoas ou os mais novos da escrita. 
 
Parece-me que há aqui alguns problemas básicos.
Tenho uma visão à partida bastante simples sobre o que deve ser o ensino da escrita.
Primeiro, que se martele a ideia de que todos os textos devem ter um princípio, um meio, e um fim (é espantosa a quantidade de gente que é incapaz de o fazer, pensar, e muito menos, projectar); segundo, que há práticas de bem escrever, formas correctas de dizer as coisas (temos poucas acções do tipo Edite Estrela – devia haver mais); terceiro, escrever pequenas cenas ou pequenos textos inconsequentes, é isso mesmo – inconsequente – pelo que se deveria privilegiar a escrita de textos completos onde usar tecnicas previamente discutidas; quarto, que haja sempre discussão e re-escrita dos textos assim produzidos.
É mais ou menos este tipo de modelo que tem sido usado em certas escolas de Creative Writing anglo-saxónicas, e pela quantidade de escritores publicados, premiados e maduros que produzem, não me parece que não funcionem. É também algo de bem diferente daquilo que se costuma fazer por cá.
 
Quem frequenta uma aula de escrita criativa, não quer aprender a ter ideias, quer aprender a escrever. Subverter isto ao mais atomizante dos princípios técnicos, não funcionará bem a longo prazo. Mesmo para alunos de escola, penso que seria mais útil dotá-los da capacidade de contar uma história com principio meio e fim, do que pô-los a brincar ao perdi uma letra. É como a dispensa ou subalternização da leitura de clássicos ou de livros e contos completos: se não há modelos, paradigmas, exemplos, nos quais as pessoas se possam apoiar, estudar, analisar e versar, nunca chegaram ao ponto de poder contrariá-los coerentemente se esse for o seu desejo. Criar no vácuo, não é criar de forma eficiente: é apenas estar condenado a redescobrir (e a mais das vezes mal) a roda. Leia-se um pouco de T.S.Eliot para perceber isto. As pessoas tendem a esquecer-se que a imaginação, enquanto matéria-prima da escrita, é tão básica e inconsequente que, se não houver um tratamento de base, estrutural, a ela aplicado, o produto sairá no mínimo um engalanado cliché/lugar-comum, etc.
 
Por mim, estas questões da escrita criativa são mais um sintoma do tão propalado ‘eduquês’, muito pouco preocupadas em fazer com que as pessoas saiam de lá a escrever melhores textos, mas sim a usar ‘boas’ técnicas de escrita…e após alguns anos de existência desses cursos, pergunto-me pelos resultados práticos: onde estão os escritores (para nem falar em bons escritores) por eles formados?
 
Nota Final:
Perguntem-se sempre o que procura um editor quando lê um livro ou um conto…
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2 responses to “Escrita Criativa

  1. Caro Nuno,tem razão em várias das coisas que diz. A Escrita Criativa é profundamente mal leccionada em Portugal — quase só se baseia em exercícios, excluindo as técnicas (porque a maioria dos monitores dessas oficinas não as conhecem). Sugiro-lheo meu novo livro, intitulado Introdução à Escrita Criativa (Lisboa: Edições Colibri, 2009), baseado nos cursos que leccionei na Universidade de Aveiro e na Universidade de Varsóvia. Mais informações podem ser obtidas no sítio das Edições Colibri (http://www.edi-colibri.pt/Detalhes.aspx?ItemID=1277), onde também é possível encomendar o livro.Da contracapa:Neste livro, o meu principal objectivo foi registar técnicas eexercícios básicos para que um aprendiz de escritor, talentoso e com forçade vontade, os possa experimentar, sozinho ou no contexto de uma oficina deEscrita Criativa. Para além disso, desejei apresentar material pedagógicoútil a quem pretender leccionar com seriedade um curso, nesta área.Em termos estruturais, sigo uma linha lógica: debato o conceito de EC;menciono as qualidades necessárias a um escritor; sugiro algumas técnicaspara desbloquear a inspiração; analiso a arquitectura do enredo; apresentoconselhos para construir personagens realistas; dou dicas para escreverdiálogos naturais; exploro formas de criar uma atmosfera num texto; especulosobre o futuro da EC; etc.(…) Resta dizer que a criação literária constitui uma área antiga einesgotável. É previsível, pois, que a viagem por esse universo magníficocoincida com uma vida inteira de aprendizagem. Afinal, no dizer de ErnestHemingway, a escrita é uma área onde todos somos aprendizes e ninguém podeafirmar que é mestre.Um abraço,João de Mancelos

  2. Obrigado pela recomendação. É de facto uma pena que não haja mais e melhores oficinas de escrita. Escrever é uma arte e um artifício. Os técnicos por vezes esquecem-se disto.

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