Literatura e Parolice – Uma entrevista na Ler a MRP

Como já terão reparado as pessoas que gostam de literatura, saiu no último nº da revista Ler uma entrevista a Margarida Rebelo Pinto.

Um pequeno enquadramento diz-nos que esta vem no seguimento de grandes entrevistas centrais que põem a revista a dar-nos nos seus últimos números uma espécie de panorama dos principais nomes da literatura portuguesa nossa contemporânea. Ou seja, Margarida Rebelo Pinto (MRP), uma das campeãs de best-sellers nacionais, é entrevistada a seguir aos pesos-pesados da inteligentsia, António Lobo Antunes e José Saramago. Há portanto aqui uma clara noção do que Francisco José Viegas, director da revista, está a fazer. Não me espantaria que os nomes seguintes fossem Miguel Sousa Tavares ou José Rodrigues dos Santos ou Lidia Jorge (mas muito me espantaria se fossem João de Melo, Fernando Campos ou João Aguiar).

As entrevistas anteriores foram interessantes, pouco dadas aos fenómenos de intriga em torno dos entrevistados, e embora tivessem de referir a animosidade existente entre os dois autores masculinos, fazem-no com algum respeito pelos entrevistados, ou pelo menos não se alongam nas interrogações conexas.

Com MRP caem as luvas e os salamaleques.

Durante toda a entrevista assistimos a uma atitude insultuosa, de prima donna por parte de quem o não esperaríamos: o entrevistador. Nitidamente condescendente, arrogante e servindo-se de um ambiente jornalistico para algo que só podemos qualificar como indescritivel. Durante bastante tempo a entrevista parece um interrogatório, com o entrevistador a bater diversas vezes na mesma tecla, por asinina tecnica moscarda incomodativa, como se quisesse "passar mensagem" ou "acossar" a entrevistada. Não via disto desde certas entrevistas de Maria Elisa, ou da ex-senhora Rangel (cujo nome agora não recordo, que quando tinham entrevistados de esquerda, ficava indefinidos tempos a tentar escarafunchar temas que supunha ela incomodativos para os entrevistados, mesmo quando a maior do tempo não conseguia absolutamente nada, cedência nenhuma, etc). Aqui é mais do mesmo. Com a desvantagem de MRP não ser uma pessoa brilhante a nivel de raciocinio ou exposição do mesmo, mas convenhamos, nem todos podemos ser brilhantes ou geniais, e isso não é crime; crime é tratar alguém com soberba e condescendência inúteis. Para além do que a senhora sofreu um AVC há coisa de um ano e não é lá muito "católico" ou cavalheiresco ou de mera boa índole o tentar obter reacções acaloradas a perguntas de chacha com tal situação em pano de fundo.

Quando MRP desliga o gravador do entrevistador e dá a entrevista por acabada, já o leitor o teria feito há muito; que ela tenha aguentado tanto, é um feito quase prodigioso. Se ela fosse homem provavelmente teriamos cena à antiga, com tabefes e insultos q.b.

Eu não gosto dos livros da MRP (lí Alma de Pássaro que não desgostei, e fui incapaz de chegar a meio quer do Não Há Coincidências, quer do Sei Lá e de um dos últimos que ganhei num concurso); isso não me dá o direito de ser acintoso com ela, ou arrogante. Não gosto, posso explicar tecnica e estéticamente porquê, e debatê-lo, mas dar-me ao luxo de ser mau caracter, isso já não me deixo. 

Quando logo a seguir MRP diz que o entrevistador está a conduzir muito mal esta entrevista, está a dizer a mais absoluta verdade. E quando o entrevistador, na sua prepotência de gravador, diz que os leitores julgarão tal facto, é mesmo verdade, só que o tiro sai-lhe errado: esta é das piores entrevistas que ví em anos: com um entrevistador a botar sentenças, em vez de entrevistar. Oh, as perguntas estão lá, especialmente as negativas, mas têem uma missão, e não é, para todos os efeitos, a de informar ou revelar a personalidade ou obra da entrevistada.

Aquilo, essa parolice sem maneiras cheia de risinhos escarnecentes de boca ao lado parece, na esteira das imagens de cinema americano, uma interpelação de advogado, em tribunal, a uma testemunha hostil. Ou um debate político em que o entrevistador pretende massacrar o entrevistado.

MRP, nem que pelo facto de ser uma pessoa, merece um mínimo de respeito, mesmo que o entrevistador não o sinta por ela ou pela sua obra.

Mas para qualquer dúvida, comprem a revista e vejam pelos próprios olhos. É que a rapariga pode não ser material de Nobel, ou mesmo sequer de boa malha literária, mas isto não é uma entrevista, é uma colecção de ataques à personalidade dela. MRP é mediática, mas também à custa deste assassinato de caracter que por vezes é tão típico cá no burgo. Dispensável na Ler, talvez mais apropriado noutras publicações.

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