Circulo de Leibowitz – River of Gods, de Ian McDonald

 

Tudo neste livro fascina e cria água na boca. Uma água tão sagrada e suja como a do Rio de deuses que lhe dá o nome, o Ganges, a alma dos povos da India.

River of Gods um livro do qual se gosta tanto pelo que consegue, como pelo que falha, o resultado de um quase hipnótico, quase mântrico, uso da lingua escrita, com pinceladas de enredo e fútil manipulação de grandes conceitos de quase filosófica ficção cientifica. Mas, se bem que o texto esteja pejado de linguajar hindu, o certo é que tudo em RoG exsuda preocupação britânica. Resultado (e não reflexo), penso, da própria relação que os ingleses sempre mantiveram com a Índia: uma cultura virtual, que exerce sobre os britânicos um misto de fascínio pelo exotismo, pelo inacreditável funcionar de uma sociedade intensamente estratificada e pela intensa noção de estranheza, de alienação que nela podem encontrar…facto que por inúmeras vezes o autor comenta através das personagens. Entramos lentamente neste panorama, pelas mãos de um início muito indiano, mas depressa a cortina esfuma-se, pelo que a reacção somática do leitor vê-se rapidamente a braços com o cricket, a ascensão social e Bollywood, imerso na força viva da sempre eminente multidão indiana, encostado pela pressão sócio-demográfica, das forças económicas e comerciais mais importantes do terceiro mundo, dentro de um país de mitos vivos (e neste romance, literalmente vivos). Talvez não seja difícil perceber as razões pelas quais McDonald, sendo inglês, resolveu tomar este caminho: os indianos (incluindo a variante paquistanesa e muçulmana) estão de entre os mais numerosos emigrantes na Grã-Bretanha, e a ligação entre os dois povos é historicamente impressionante…para além de que a própria história exigia um setting assim, um país de terceiro mundo com recursos principalmente.

Porém, trata-se de uma India alternativa, a nação de Bharat, a braços com uma crise económica de raiz ecológica tremenda: o periodo das monções não se faz sentir à dois anos. Podemos seguir, em tom de fundo, a forma científica e simples como o problema começa a ser resolvido (com recurso a um iceberg). Esta tensão crescente da falta de chuva, de uma guerra eminente (tanto civil como com países vizinhos), acompanhará todo o romance… e tudo estalará evidentemente. Entretanto o princípio é todo ele particularizado em personagens e nas suas vidas, vidas que se cruzarão das mais variadas formas, numa dinâmica muito muito rica. Tão rica como a própria India à beira do Ganges, e é aliás aí que tudo começa, sintomaticamente com Shiv, um traficante de orgãos femininos em torno de um corpo de rapariga; um traficante cuja vida está prestes a ser radicalmente mudada, que irá torná-lo num criminoso mais duro e diferente. A vida normalmente faz-nos isso. Notarei aqui outra marca britânica do romance, entrevista na relação entre Shiv e Yogendra, o rapaz que funciona aqui como o seu sidekick; é titpicamente inglesa este uso de personagens-duplas, em que um master não existe na e para a história sem um ajudante. Curiosamente, podemos entrever este tipo de relação em todos os personagens de RoG…

Há também um polícia da Unidade Krishna, que vive num mundo de deuses tornados quse reais, descurando a vida pessoal. Deuses que são IA’s legais modeladas segundo o panteão hindu. Tal como Deckard em Blade Runner, Mr. Nandha é um polícia que caça, neste caso IA’s que fogem ao controlo humano. É a partir daí que as semelhanças começam a divergir, e depressa vemos que ele não persegue os andróides de Dick (que eram a progressão lógica da ideia de robot nos anos 60), aqueles que queriam viver mais do que os dois anos de vida com que eram inceptados de fábrica, mas IA’s que supostamente ficam loucas, escapando selvagens para os construtos mecanizados do mundo real, sejam eles quais forem, de modo a simplesmente libertarem-se (há algo aqui de drama grego, de matar o pai, que ambos os autores ligam à loucura, algo que não desenvolverei para não oferecer spoilers, mas que é fulcral neste romancei). No processo, podem matar gente, e causar incalculáveis danos. O mais curioso é que enquanto Deckard amava animais e sonhava ter um vivo, ou pelo menos uma boa réplica, em RoG, é Parvati, a mulher do Sr. Nandha, quem tem um terraço onde cultiva plantas. A simbologia em torno de um desespero pessoal que busca um forte sentido vivencial é óbvio, e penso que Ian McDonald está de facto a referenciar Dick, bem como a comentá-lo. Durante o corpo do romance, Parvati revela-se bem mais importante do que o seu marido, e penso que isto se liga ao facto de uma das importantes coisas que McDonald pretende fazer com este romance ser comentar as noções e problemáticas de género, algo que estava muito difuso e indirecto em Dick.

Depois temos ainda a trama alienígena, com um familiar Big Dumb Object, um asteróide que faz algo aparentemente impossivel, e que chama à colação a existência de 3 outras personagens, Thomas Lull, Lisa Durnau, e Aj (a figura messiânica do romance).

E há o Neutro, um Yt (termo brilhantemente encontrado), pessoa que se alterou cirurgicamente para não ter qualquer dos dois sexos, e a quem pungentemente seguimos, mergulhando na sua tragédia pessoal, no como se envolve com um político conhecido, Shaheen Badoor Khan, também ele importante personagem do romance; algo que roça o melhor que se pode ver nas Holla! deste planeta mas, infelizmente, um campo onde McDonald falha um bocado; há um deficiente tratamento do apaixonar-se destes dois personagens, um processo que está imperfeitamente desenhado. Mas o drama deste Yt, é o contraste relacional com a existência de Parvati: enquanto esta sonha com uma vida de novela, o Yt (ironicamente um dos técnicos informáticos que trabalha precisamente na elaboração e manutenção dos conteúdos da maior telenovela bharatiana, a “Town and Country”) vive-a, apaixonando-se por esse elemento do governo que tem uma fixação obsessiva por Neutros, e há-de entrar a inevitável acção erosiva dos media nesta história, com ajuda de mais uma personagem, uma jornalista sueca de apetite físico voraz.

Por último, há o toque comercial, com o learesco drama de um industrial indiano a repartir o seu império entre os três filhos. Aqui seguimos um comediante, que fica com a parte de Pesquisa e Desenvolvimento desta empresa, e em como neste domínio se conjugarão universos paralelos, IA’s que atinjiram a singularidade e que estão a agir de facto na sociedade humana.

Mas esperem! Atenção, porque há mais personagens e temas!

Esta caleidoscopia é tão mesmerizante quanto a própria cultura indiana.

Para mim o problema principal do livro é o facto de ele trair a tecnica principal que utiliza e não tanto o facto de conseguir ou não a desejada boa mescla de elementos. Na difícil linha dos romances de múltiplos personagens, ou que pretendem estabelecer grandes e estanques mundos semelhantes ao nosso mas devidamente extrapolados, o livro firma-se inicialmente bem no propósito, para a meio descambar na mera intriga de lençóis e de thriller e de mistério, sem nunca passar o testemunho, de forma total, para os campos da ficção científica…apesar de não ser possível pensar neste livro como sendo qualquer outra coisa que não isso. Deixarei ao leitor a conclusão final, a de saber se o autor se consegue ou não redimir do facto com um excelente final. Por enquanto, e marginalmente, note-se que quando a narrativa começa a querer mudar estes "tons" socorre-se da tecnica da introdução de novos personagens, o que num universo já cheio de outras torna o romance ainda mais caleidoscópico, de uma forma necessária talvez, mas que me desagradou pelo simples facto de o enredo só conseguir avançar devido à sua introdução, e nunca pelas qualidades próprias do "plot". Haverá quem goste, mas não serei muito apologista do facto. Outra consequência é a de que os elementos de FC cedem perante o drama humano de cariz novelesco, ficando este como o verdadeiro motor da história pela maior parte do livro, o que é também trair um bocado as frutuosas capacidades alegóricas, por alguns consideradas indispensáveis da própria FC. Não sou tão absolutista em relação ao tema, mas concordarei que a tecnica retira força às potencialidades do romance. Por outro lado, é inelutável o facto de que as mais geniais e literatas passagens do romance, são conseguidas à custa deste dueto de satisfação-insatifação, do qual são excelente exemplo os textos sobre Parvati e o amante (o jardineiro, um clássico) e o marido, o Sr. Nandha.

Não é fácil gerir um universo de várias personagens, e as principais são aqui muitas. A FC tem algum historial no facto, com algumas vitórias fabulosas, como o seminal Stand on Zanzibar de John Brunner, provavelmente "O" Romance que melhor sucede neste tipo de construcção narrativa (e aproveito para relembrar talvez a primeira tentativa, de Fritz Leiber, The Wanderer, por muitos considerada relativamente falhada), e o sucesso deu-se em grande parte ao uso das tecnicas desenvolvidas por John dos Passos (Manhatan Transfer, anyone?), com pózinhos de quase stream-of-consciousness modernista. Mas jogar muitas personagens, utilizar múltiplos tipos de discurso, muito diversos, colagem, etc, é algo que McDonald definitivamente não faz, mantendo uma coerência de estilo ao longo de todos os personagens, eventos e cenários o que, por vezes, cansa um bocado a leitura (não nos esqueçamos que se trata de um denso calhamaço de cerca de 600 páginas). McDonald executa uma fuga em frente estilística que, apesar de muito controlada, acaba por soçobrar perante as exigências do enredo…enquanto no cenário e na caracterização triunfa claramente.

Como o enredo, embora o chegue a parecer, não é complexo, abster-me-ei de o referir, mas ofereço as seguintes considerações.

Pertíssimo do fim, e acompanhando a gentil “iluminação” de uma cientista, Lisa Durnau

(responsável pela virtualização da vida terrestre Alterre), o autor dá-nos a explicação última do extraordinário e ontogénico evento do clímax do livro, e ao fazê-lo, comenta o mais britâncio e pos-moderno sentimento das letras inglesas, desde os anos 90 até hoje:

“A flecha do tempo voa em sentido contrário.”

Esta obsessão com a reversibilidade do tempo, que ocupa as preocupações estéticas dos grandes nomes da literatura britânica (exemplarmente, Martin Amis e Julian Barnes), e que na área da FC se tem reflectido nas temáticas da Singularidade e da crença absoluta da sua magna consequência, a saber, a űber-inteligência das futuras Inteligências artificiais (e.g. Ian Banks e Neal Asher), esta obsessão é o tema central, o eixo direccionado, a revelação pretendida, tudo o que lá quiserem enfiar…mas também algo que é no fundo um segredo de polichinelo mal utilizado, visto que é sempre obviamente um não-segredo, e sem grande força de alegorização.

É uma pena que seja somente nas últimas 200 páginas (num universo de quase 600), que o enredo e a acção mais relevantes invadam finalmente o livro (quase, mesmo quase satisfatoriamente). O livro e o incrível fresco indiano a que o autor se propôs, o que a meu ver é muito bem conseguido. Mas a pena advém de que nesse momento, que surge pouco a seguir a metade do livro, vemo-nos na posse indiscutível de todos os dados necessários para adivinhar absolutamente tudo o que se irá passar a seguir, mesmo a nível das ideias e dos conceitos. Ou seja, o prazer do clímax, neste caso tão dependente do binómio surpresa/novidade fica tão nulo como o universo descoberto pela Ray Power.

No fundo, o discurso de RoG é sobre a FC. IA’s, BDO’s, a genética, a singularidade, o virtual Vs real, história alternativa, e outros tropos constantes do romance, são o que preocupa a FC como um todo hoje. RoG transparece como um catálogo de itens sábiamente misturados, sob a capa de romance-mundo com estrutura só aparentemente complexa, mas de simplicidade policial. As referências às conquistas do género FC são constantes no romance, como já se deu a perceber. A sombra das ideias do movimento mundano faz-se ouvir, mas é como se estivesse a ser olimpicamente subsumido e ignorado. Contudo, tenho um bichinho que me diz que, se McDonald tivesse "ouvido" mais Brunner, o resultado talvez tivesse dado o grande passo em direcção ao absolutamente genial…assim quedou-se pela figura anglófona do "a great yarn", com pozitos de génio ocasional e um grande grande lirismo do qual o autor se recusa a abdicar. Como previsto, o publico americano é sempre menos sensivel a esse tipo de escrita, e para variar, os autores ingleses encontram nele um campo preferido. M. John Harrison, Gwyneth Jones, e o recém-falecido Ballard, são nomes que nos surgem facilmente ao pensar no texto de McDonald. Mas todos cedem perante a monumentalidade conseguida e seja como for que se olhe para o dentro deste romance, é de admirar o fresco caleidoscópio oferecido.

Nos próximos dias tentarei ainda voltar a alguns destes tópicos para os aprofundar ligeiramente.

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