Círculo de Leibowitz – Mindbridge, de Joe Haldeman – 1ª Parte

Preâmbulo

Foi no final da minha adolescência que, por um feliz acaso, descobri este precioso livro, entre os três de FC que existiam entalados por uns, igualmente raros à época, comics americanos, numa baixa prateleira de uma livraria que já não existe. Os outros dois eram versões para estudantes de Inglês, notáveis edições com vocabulário limitado e algum resumo da acção – e tratava-se de uma colectânea de contos de Robert Heinlein e de Rendez-vous with Rama, de Arthur C. Clarke, o que como viremos a perceber, é de uma excelente serendipicidade. O tempo era o dos anos 80.

Para alguém que andava ainda a aprender inglês na escola, o livro estava nas bordas do compreensível, mas de algum modo a sua qualidade deve ter entrado no meu cérebro, porque desde a primeira leitura, nunca mais deixei de o reler.

A 4ª re-leitura aconteceu por ocasião dos 1ºs Encontros da Simetria em Cascais em 1996, um evento genésico da comunidade de FC & F em Portugal, e o motivo foi o de que Joe Haldeman seria um dos convidados presentes. A estrela do evento, se bem me lembro, era outra: Brian Aldiss. Mas os nomes que alguns já então reconheciam de Haldeman, Charles Brown, David Pringle, Gwyneth Jones, eram pesos pesados do género, sem dúvida com interesse por este novo mercadozinho sui generis à beira-mar plantado. Entre as inúmeras pessoas que conheci no evento, Gay e Joe Haldeman foram das mais simpáticas. E para não retardar mais o asunto, revelo o diálogo que mais me impressionou, ocorrido entre os três, com Haldeman nervoso e à espera do momento de entrar para o Teatro Gil Vicente de modo a dar a sua palestra (cujo tema não recordo).

Recordo de ter dito, em jeito de Desbloqueador de Conversa, que Mindbridge era um dos meus livros de FC favoritos (e era – e ainda é). Haldeman, primeiro não ligou muito, mas Gay, a esposa, disse logo que era uma boa escolha, tanto mais que o livro era mesmo sobre ficção científica.

Como assim? perguntei. Gay pediu a Joe para explicar. Este começa a explicação com os olhos meio distraídos, mas em breve ficou imerso nas próprias palavras, com o entusiasmo que hoje reconheço típico do autor que conseguiu fazer algo de que se orgulha com uma obra sua.

Parece que ele resolvera pegar em vários tropos da FC, aqueles considerados mais comuns e aceitadamente impossíveis (teleportação, aliens, telepatia, etc.) e dera-lhes uma roupagem de especulação científica, de modo a fazer um discurso sobre o género. O meu cérebro da altura, reteve bem a premissa, embora não tão bem a parte final. E não ligou muito à conversa ou ao conteúdo. Pelo menos julgou que não.

A realidade foi muito diferente. Nos últimos anos tenho descoberto que o livro e a conversa determinaram muito do que eu sei e penso sobre a FC. Se terá sido por causa da minha idade, do momento, ou por um acaso de interesses, não o sei dizer. Quando surgiu o momento de escolher um livro para ser analisado no âmbito do Circulo de Leibowitz, vários livros me passaram pela cabeça: Slan de A.E.van Vogt, Cidadão da Galáxia e Os Manipuladores de Robert A. Heinlein,  Mundo sem Morte de Philip José Farmer… tudo livros relativamente pequenos, importantes clássicos do género, e quando chegou o dia de escolher, a decisão saiu-me abrupta e inesperada no e-mail para todos os meus colegas críticos do Circulo – Haldeman, Mindbridge.

Há pelo menos uns dez anos que não o relia. Mas se é verdade que os olhos estão mais cínicos, o cérebro mais armado, o certo é que o conhecimento sobre o livro bem como o respeito,  aumentaram consideravelmente…agora com uma ponta de afectuosidade madura a somar à adolescente. Desapareceu o “punch” emocional, o fascínio incomensuravel pelo maravilhoso, gerados pelas primeiras leituras, mas sobreveio o reconhecimento boquiaberto pelos feitos de estrutura-e-conteúdo, com a energia inocente e durado jovem Haldeman.

O que nos leva à primeira parte desta crítica, ao suminho, ao osso, àquilo que nos traz aqui.

 

I

Mindbridge foi publicado em 1976. A New Wave fazia os seus pirotécnicos estragos entre o storytelling típiconorte-americano, soltando contínuas bombas massivas sobre as temáticas Golden Age anteriores. De repente, na FC, tudo era possivel; até fazer literatura séria, inteligente, para gente inteligente; até mudar a sociedade e o mundo.

Joe Haldeman, um universitário de Astronomia enviado para o Vietname, passa a comissão de serviço a ler Heinlein e a escrever notas entre as batalhas. O resultado, após o regresso à vida civil por cortesia de uma ferida de guerra, foi The Forever War (“Guerra Sempre”, Publi. Europa-América, Col. Nébula, nº 94) e apanhou a comunidade de FC de chofre. O livro era uma crítica feroz ao Vietname, à Golden Age, e em específico ao mítico Starship Troopers de Robert A. Heinlein (Soldado no Espaço, Ed. Livros do Brasil, Col. Argonauta, nº 129, com re-ed. na Editorial Notícias mais recente, com o título Soldados do Universo). Com esse primeiro romance, Haldeman estabeleceu-se como uma das mais importantes vozes americanas na FC, mas o certo é que os livros que se seguiram, bem como os contos, foram igualmente brilhantes. Entre eles este Mindbridge.

Como acontece sempre com Haldeman, a prosa é de fácil digestão. As frases simples e claras, as situações e personagens suavemente delineadas e interligadas de modo a produzir um discurso corrente e sem percalços de estilo. A pirotecnia conceptual começa a parecer evidente por algo que aos poucos notamos na leitura. Há 53 partes, a que convencionalmente chamamos capítulos, mas conforme avançamos na leitura, reparamos que o Primeiro capítulo aparece nomeado como tal na parte 5; o Segundo na 7, etc. Mais ainda, o número de partes que compõem um capítulo variam, podendo ir de duas a cinco. Voltando para o índice com títulos, percebemos que há somente uma secção prambular e 15 capítulos. É então que se repara noutras coisas, como na dedicatória do livro: “para (…) e para John Brunner e John dos Passos, pro forma”.

Na minha anterior crítica para o Círculo de Leibowitz, sobre o River of Gods de Ian McDonald, falei que ele era uma tentativa de retomar, em roupagem moderna, as experimentações com a multi-narrativa feitas por influência de John dos Passos e na FC, notoriamente por John Brunner. Deveria ter apontado igualmente para este Mindbridge. Porque a narrativa não é a convencional, seja na terceira pessoa, ou na primeira, mas inclui ostensivamente outros registos, como o da entrevista, do relatório, do spot publicitário, peça de teatro, programa de rádio, etc. E note-se que estas secções (cada uma, constituindo uma Parte na estrutura formal do romance) não são somente ilustrativas ou dependentes das de narração clássica, mas fazem parte integrante da história, visto que em cada uma encontramos elementos que nos fazem evoluir no enredo, se bem que também o revaloram constantemente. Ou seja, Mindbridge é uma história convencional contada de forma não-convencional.

E faz-se a primeira luzinha de Prof. Pardal na cabeça: não é nisto que deve consistir a literatura de ficção científica? A meu ver, e em boa parte, sim. Era um dos objectivos principais da New Wave, o destruir o discurso simplista da Golden Age e revalorá-lo com a densidade dos meios técnicos da boa literatura. Entre outros úteis recursos, com a desconstrucção óbvia dos seus personagens-tipo e necessário enrobustecimentoda caracterização.

Passemos então ao motor do enredo, ao fio da história, que é Jacque Lefavre, o personagem principal do livro, embora não o seu mais importante protagonista. Tipicamente em Haldeman, Jacque é um homem grande, roçando o gigantismo (uma fixação do autor que confesso não compreender, a não ser usando de algum esforço criativo, como metáfora com pernas da superioridade das personagens multidimensionais das obras New Wave, o que me parece um pouco rebuscado (isto acontece em outros livros do autor, como por exemplo na trilogia “Worlds”, ou no “There Is No Darkness” escrito a meias com o irmão, Jack C. Haldeman). Também como de costume, a personagem tem uma falha de caracter que o determina, neste caso uma demasiado fácil irascibilidade, com a qual Lefavre convive desde miúdo. O preâmbulo do texto, ou seja, as partes de 1 a 4, são-lhe especialmente dedicadas, ao mesmo tempo que se dá uns laivos de encenação e estabelecer do enredo:

Jacque Lefavre é um jovem de cabeça quente, recém-saído da “Academia” da Agência de Desenvolvimento Extraterrestre. As duas primeiras partes colocam-no no final do curso para ser um “Tamer”, um agente capaz de missões em planetas distantes, com o objectivo de serem terraformados. Nesta secção é também explicitada a questão generacional, sob uma das alegóricas formas que tomará no romance: a de como há uma clivagem abismal e aparentemente insolúvel entre a nova e a velha gurda da FC; isto acontece na imagem que nos fica da relação entre Lefavre e o pai, com quem manteve uma convivência cheia de conflitos.

O Primeiro capítulo iniciará o enredo propriamente dito, ou acção, com a descrição da primeira missão extraterrestre de Lefavre. A viagem é executada através de um LMT ou Transmissor de Corpos à Distância (um mecanismo que usa um processo prescientemente explicado com recurso à física quântica). É de notar outra carcterística do universo Haldemaniano, o facto de as mais importantes descobertas científicas serem-no por acidente (ver, por todos, o seu último livro publicado entre nós, A Máquina do Tempo Acidental, Publ. Europa-América, Col. Nébula, nº 105 *), uma ideia muito tributária do que acontece na vida real, embora nas mãos do autor, adquira uma certa aura de facto maravilhoso per se.

Não descreverei muito mais a nivel de estrutura. Digamos apenas que os 15 capítulos serão dedicados a responder a uma pergunta apenas, uma pergunta clássica da FC, que consiste em saber de que forma se procederá o nosso primeiro contacto com espécies alienígenas. Para dar umas luzes do que estará em jogo, recorde-se o filme “O Dia em que a Terra Parou”, como sendo a típica (e simplificada) abordagem Golden Age a este assunto de Primeiro Contacto, uma história onde uma alien vem à Terra para julgar se os seres humanos serão dignos de pertencer à comunidade galactica de espécies desenvolvidas, se poderão ter ou não o potencial de crescer, sob pena de o planeta ser completamente erradicado de vida humana (o filme foi recentemente objecto de um pálido remake, com um habitual Keanu Reeves a fazer de alien; curiosamente, aquilo que falha neste remake é precisamente aquilo que Haldeman criticou indirectamente com o seu Mindbridge em 76). Ou seja, temos o plano delineado à partida, de falar sobre a FC, com um discurso próprio, o da crítica New Wave, e com meios típicos, os tropos do costume (teleportação, aliens, telepatia – todos reputadamente impossiveis ou inexistentes na vida real).

[continua dia 25 de Junho, com uma parte II dedicada à exploração temática da obra]

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* A propósito deste The Accidental Time Machine, sairá uma crítica minha ao livro na próxima 6ª feira, dia 26 de Junho, no site Orgia Literária

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3 responses to “Círculo de Leibowitz – Mindbridge, de Joe Haldeman – 1ª Parte

  1. Texto muito interessante :)Apenas tenho uma pergunta… No conjunto das duas partes, existem duas partes – a I e a III. Distracção, ou está-me a falhar algum link para a parte II?Excelente blog 😉

  2. Olá Francisco,são de facto 3 partes (Prêmbulo, I e II) pelo que o facto de aparecer III e não II como devia no post seguinte foi uma desatenção da minha parte. Muito obrigado pelas opiniões e pelo reparo 🙂

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