Circulo de Leibowitz – Mindbridge, de Joe Haldeman – 2ª Parte

Eis que, surpreendido pela morte da Farrah Fawcett – desculpem lá os fâs do rei do pop – e por algumas outras vicissitudes da minha gloriosa vida privada, não pude postar este texto ontem (ou melhor, dia 25, se bem que para os que de nós fazem horários paralelos mas desfasados às 24 horas normais isto já não deveria acontecer) como prometido. Porém aqui segue a última parte do texto sobre Mindbridge. Espero que o conjunto seja do vosso agrado ou, pelo menos, útil.

III

Os temas

Sendo basicamente uma história de Primeiro contacto, há códigos observáveis que parecem evidentes: um grupo de humanos, interdisciplinar, internacional e plurirácico obterá melhores resultados, assim como uma organização com contornos militares, também ela internacional. Isto até entrou no código da Golden Age, pelo que fracamente poderia ser considerado uma crítica. Já não tanto assim, o papel que o indivíduo, e em especial o personagem principal, detém no seio desse grupo.

Fugindo a todos os lugares comuns do género à data, Lefavre é a antitese do protótipo louro, alto e espadaúdo, com síndrome de “pequeno engenheiro” (o personagem capaz de resolver as mais incriveis situações com recurso ao próprio engenho, especialmente ao último momento). Aliás, este personagem está igualmente tipificado numa outra personagem secundária do romance (Gus), e é curioso que as relações entre ambos são sempre tensas, de desagrado mútuo mas tolerância normal básica (apesar de haver escaramuça óbvia, principalmente quando ambos são “chamados” à performance sexual obrigatória). Sabiamente, o assunto não é demasiado usado, já que só marginalmente relevante para o enredo principal. Porém ajuda-nos a dar dimensões a Lefavre.

Lefravre não é americano ou muito americanizado (é curiosamente suiço, uma boa escolha para não o tipificar muito em termos genéticos), e apesar de estar presente em vários dos momentos-chave do romance, é quase sempre um personagem não directamente interveniente. Sintomaticamente, num dos contactos mais importantes, ele até será nocauteado antes de poder “fazer” seja o que for, quanto mais proezas heróicas – e a cena é exemplarmente “acabada” com a exibição de um olho negro no seu rosto, ferida tipicamente humilhante ao espirito do duro da cobóiada espacial.

E aqui podemos inserir outra das temáticas, talvez das mais importantes que correm paralelamente dentro do romance: a relação dos sexos. Em “Guerra Sempre”, Haldeman agradara às hostes feministas da FC (e não só) com a forma natural como lidara com o assunto, escrevendo sobre unidades militares mistas e muito pouco tabu sobre a nudez em tal ambiente (algo que 30 anos depois ainda incomóda algumas almas bacocas como pode ser visto nas cenas de tensão sexual na seriezinha Star Trek que anda a passar nos nossos ecrãs nacionais neste momento, ou de forma meno sóbvia, na última versão da Battlestar Galactica). Em Mindbridge, o tema é levado um pouco mais longe. Trabalhando sobre a base do livro anterior, é engraçado notar que a maioria das personagens fortes são femininas (os que comandam as unidades de “Tamers” em missão são sempre mulheres), e que a minima tentativa de realçar diferenças qualitativas de género é por todos os personagens condenada (há uma cena em que é Lefavre sugere que o organismo telepático que eles encontram no planeta Groombridge funciona melhor com homens que com mulheres – e apesar de algumas provas iniciais poderem apontar nessa direcção, todos recusam a hipótese – uma sugestão que se revelará impossivel logo a seguir).

Não nos podemos esquecer que 76 é um ano em que a FC Feminista está plenamente em força, com várias figuras de proa, militantes e incontornáveis. E que até hoje, Haldeman é bem considerado por esse sector influente do meio. A razão são as formas equilibradas como ele sempre toma os assuntos que podem ser influenciados por questões de género. O facto de ele fornecer situações e conclusões satisfatórias nesse meio, ajudou-o a cimentar-se como um nome a ser ouvido inteligentemente. Essa legitimação, principalmente a nivel de crítica, passou a ser muito importante na época, e ainda hoje se faz sentir. Podemos dizer com segurança, que Haldeman assume nestas questões uma posição equilibrada, segura, com graça, e despreconceituosa (não esqueçamos que estava-se no auge dos filmes de sexploitation e no boom inicial da industria pornográfica, pelo que o assunto era tudo menos culturalmente pacífico nos EUA); em termos de voz literaria, e apesar do género sempre ter sido mais apto a ideias de tolerância formal, isto não era muito normal. A caminhada para a igualdade dos sexos na FC, dentro e fora dos livros, só começara a ter expressão nos anos 50, algum desenvolvimento na década seguinte, mas acompanhou o weltanschaung dos anos 70.

É no estudo romanesco das ligações telepáticas através do bioorganismo referido (a Bridge ou “Ponte”) que o assunto da telepatia e da relação dos sexos, bem como a postura do individuo face ao tema, se tornam interessantes. Acontece a meio da história, após a descoberta desse organismo e antes do primeiro contacto extraterreno “a sério”, o que nos dá a noção de que é uma temática importante o suficiente de moto próprio para ser levada em conta sem grandes problemas sitacionais directamente relacionados com os eventos do enredo principal. É aqui que observamos como, no interesse da Ciência e de alguma curiosidade hormonal primordial, Lefavre e Carol, colegas de missão, decidem levar a cabo a experiência de fazerem amor enquanto ligados telepáticamente. Todo este capítulo está deliciosamente bem escrito e construído, desde o discurso e diálogo telepático, às reacções de ambos antes, durante e pós sexo. E é curiosa a conclusão geral a que chegamos ao ver a experiência a desenrolar-se; algo que a meu ver está espectacularmente bem concebido: ao invés do esperado pelo senso comum, ou seja, a comunhão maravilhosa de mentes, o que observamos é o potenciar das sensações individuais, tanto positivas como negativas; questões como a da partilha de fantasias nunca reconhecidas ou dos efeitos da absoluta quebra de privacidade, tornam-se muito importantes neste esquema. Numa nota de apreciação, achei bonito que este capítulo amoroso (o sexto) tenha sido organizado em termos musicais, mas o efeito é, avisa-se, bem mais que puramente estético ou relativo ao meu gosto: é relevante. E termina com um comentário sublime, de inevitável referência shakespeareana, usando de uma alegoria ipecável como o falar de um novo género musical que não é novo (música neo-elizabetina), e demonstrar como os seus fundamentos são universais e intemporais através das letras do bardo, muito aptamente retiradas do “Much Ado About Nothing”

Mas as relações entre homens e mulheres não se dão somente em trabalho ou na cama. Por vezes, e quando em situações extremas, os esquemas normais de funcionamente são subvertidos ou reforçados, e este é um campo em que a FC consegue ser examplarmente inovadora em relação às banais histórias de traição e papel feminino da literatura mainstream ou realista. Neste mundo futuro a meio do séc. XXI que Haldeman nos apresenta, é posto o problema de como colonizar outros planetas. Se bem que através da teleportação consegue-se ir para fora do nosso planeta, na situação proposta acontece que não se fica lá indefinidamente. Mais ainda, tudo o que for um artefacto alienigena (comida ingerida ou bebés concebidos extraterenamente), regressam automaticamente ao planeta de origem. A solução é básica e amoral: convence-se gente, homens e mulheres, a conceberem filhos noutros planetas e a deixá-los lá (devidamente acompanhados claro). E todos os agentes da AED são contratualmente obrigados a cumprir missões de procriação para o efeito. Homens tornados temporariamente em sementais e mulheres em parideiras e, note-se, sem respeito a vinculos pessoais duradouros…e os Tamers fazem-no voluntariamente. Como se fosse éticamente aceitável prescindir de certos valores…e curiosamente uma das respostas será sim, principalmente quando há bens maiores em causa (continuação da espécie sendo a mais forte de todas). O assunto não é fácil de ponderar, mas está bem explorado, mesmo a nivel das relações interpessoais. Nem que seja pelo facto de que todas elas e todos os individuos, enquanto personagens, contêem falhas relevantes. O que nos transporta para outra área temática.

Não há pessoas, cenários ou situações em Haldeman. Bem se poderão encontrar personagens redondinhas, sem ponta por onde se lhes pegue, que não serão encontradas.Toda a tecnologia e ciência possuem igualmente importantes falhas ou caracteristicas negativas. E o mesmo se pode aplicar às situações. Esta simetria de propósitos é um puro acto estético do autor, o veículo através do qual ele constrói a obra. Não será tanto um análise de conflito entre pares aparentemente opostos, como o pôr em jogo todas as verdades estabelecidas, quer dentro quer fora do romance. E neste momento eu recordo um singelo pormenor que me delicia: o livro tem pouco mais de 220 páginas, mostrando como é obvio conseguir boas coisas sem produzir calhamaços de dezenas de enredos e aventuras. Quando atrás afirmei que Haldeman usava aqui de alguma tecnica hemingwayana (perdoe-se a expressão), falava precisamente na contenção frásica e na necessidade de carregar simbólicamente todas as situações e cenários do texto. Não é fácil, mas à epoca, Haldeman era um escritor no auge das suas energias criativas. A procura constante da “falha”, do que pode tornar um tropo, etc., num mecanismo literário interessante, é algo visto dentro da FC como sintoma de maturidade cultural. Histórias sobre tecnologia que está em degradação, ou que não é perfeita, são preocupações culturais a partir da New Wave. Mas exemplifiquemos um pouco, para que o leitor o perceba: Lefavre tem treino e inteligência suficientes para ser considerado um personagem-herói, mas luta contra a sua irascibilidade, contra a imagem paterna,  e está entregue aos caprichos da sorte comportamental e do destino genético; a relação que vai construindo com Carol está sempre exposta a separações com potencial de serem emocionalmente dolorosas; os verdadeiros aliens, quando encontrados, só nos querem matar, a telepatia pelas “Pontes”, em certas circunstâncias, mata; a teleportação tem riscos muito calculados mas incontornáveis; terraformar ou colonizar um planeta é perigoso, e só se consegue à custa de intensos e significativos sacrifícios; etc. etc. (é dificil escolher o que particularizar ou não quando se pretende não “estragar a leitura” ou seja, mostrar aqui “spoilers”, pelo que se quiserem, será melhor levar isso em conta no parágrafo seguinte).

Até o contacto com os aliens, quando acontece, é todo ele visto como uma natural série de mal-entendidos. Tanto da parte dos humanos como dos extraterrestres. E é para isto que toda a história aponta. A posteriori, até isto é relevante para as ideias de género contidas no romance. Mas é tudo delicioso: espanto dos espantos, os aliens são iguais a nós; ou não bem; tudo se transforma num banho de sangue por dá cá aquela palha; as “Pontes” não são propriamente seres inteligentes e não contam a não ser como artefactos alien. Diante de situações clássicas, tudo corre de froma diferente e inesperada, seja na autópsia aos aliens, como na resposta ao “vamos ver se vale a pena deixar-vos viver e entrar na comunidade das civilizações”, esta acaba por ser mitigada pelo tempo e pelas nossas reais capacidades como espécie, e não graças à intrepidez ou engenho de qualquer indivíduo (apesar do papel destes ser resguardado e usado por conveniência de história). Mas como esta é a parte das conclusões ou objectivos principais do livro, passarei a bola às capacidades do leitor.

Como última nota, gostava de apontar algo: a ausência desse grande tropo impossivel da FC que é a viagem no tempo. Está explicitamente ausente neste romance. A teleportação, por exemplo, é instantânea. Porém…vêmo-la contemplada na própria estructura do enredo: há variadas viagens no tempo dos personagens e do mundo em que vivem, no calor recluso das 53 partes do livro. Viagens que nos revelam tanto da história como o que nelas está incluído. Sem destapar surpresas, atentem às datas de todas as passagens e verão que por vezes há importantes diferenças de séculos.

Chega disto. Importava aqui dar indicações sobre as principais temáticas, o que fica feito. Mindbridge é um livro que delicia pela concisão de temas, que brilha pela facilidade com que tudo nele é conjugado. E há uma energia própria gerada pela estructura variável de capítulos com maior e menor tamanho, de partes mais ou menos expositórias ou narrativas tout court. E a história é gira, os personagens interessam-nos. Para além de que a passagem do tempo só hoje se nota em pequenos apontamentos, durantemente insuspeitos (por exemplo, aparece um e-book nesta história, mas não tem pilhas e está ligado à corrente; existe uma máquina capaz de transcrever o discurso de Lefavre para letra impressa, mas as falhas não são aquelas a que o software que hoje temos para o efeito denuncia, embora esteja perto, muito perto).

Ler Joe Haldeman é sempre um prazer. Neste caso em particular, Mindbridge é uma leitura sempre interessante. É assistir a um escritor na plena pujança do seu output criativo. Altamente aconselhável. E despeço-me com o aconselhamento de mais dois livros do autor: The Long Habit of Living (num mundo futuro onde quem tem dinheiro pode vencer a morte e rejuvenescer, Dallas Barr tem animadas aventuras para o conseguir voltar a fazer mais uma vez; o problema é que gastam literalmente toda a fortuna no rejuvenescimento…) e The Hemingway Hoax (que já descrevi como sendo uma fantasiosa hipótese decontornos paracientíficos em torno do episódio de vida real em que Hemingway perde os manuscritos de todas as seus primeiros contos). Se alguém se interessar por uma vertente um pouco mais juvenil, escolham a trilogia Worlds ou o There Is No Darkness (escrito a par com o irmão). Nos últimos tempos, a prosa de Haldeman está mais calma, menos explosiva, e alguns dos livros começam a ler-se mais como travellings ou cartas de amor ao séc.XX, mas nem por isso deixam de ser agradáveis (exemplarmente, The Guardian e “A Máquina do Tempo Acidental” *). Seja como for, espero que gostem da leitura.

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* O texto crítico a esta obra, que previamente anunciei como estando para sair hoje, sexta-feira no site Orgia Literária, foi transferido para a próxima 6ª, dia 3, por motivos editoriais.

 

Textos sobre Mindbridge no âmbito do Circulo de Leibowitz:

Rascunhos – Cristina Alves

Blade Runner – João Seixas

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