Sobre o Estado das Nações Fantásticas

Depois de ler este post comemorativo no Blog  Blade Runner, onde se fala do Estado das Nações Fantásticas (FC, Fantasia & Horror), resolvi participar na conversa mantida na secção de Comentários, com o texto que abaixo reproduzo. Pônho-o aqui, porque acabei por dizer algumas coisitas que de vez em quando vou espalhando por todo o lado, e porque me parece mais ou menos oportuno.

 

(…)

Sempre pensei, e continuo firme nessa opiniao, de que há um bom público leitor de FC potencial, mas que o principal problema é de imagem e consequentemente de as editoras investirem pouco no marketing dos seus autores e obras. Na minha experiencia, há anos e anos que encontro pessoas que já leram FC, que gostariam de ler mais, e que se sentem na situação dos 3 macaquinhos – não ouvem, não vêem…e não falam porque não sabem do que falar mesmo. Pouca gente sequer vê que há livros de FC publicados cá (e ainda hoje quase toda a gente só se lembra da argonauta e da E-A), e quanto a existirem autores nacionais…a resposta costuma ser de espanto ("ai ah?! a sério? nunca vi!" etc.) O facto da SdE ter um modesto sucesso no género, deve-se quase exclusivamente ao facto de apostarem no marketing, onde se inclui a muito desejada noção de comunidade, e principal necessidade satisfeita, a sua sustentação. É talvez a primeira vez que assistimos a isto em Portugal, a uma editora tentar criar uma comunidade de adeptos, essencialmente ligada à área do Fantástico. Isto é muito importante. Foi aliás assim que se deu o grande arranque ao fenómeno FC em terras do tio Sam and elsewhere nos seus primórdios. E a promoção de qualquer livro, então hoje, seja FC ou não, é absolutamente indispensável para que ele singre nas vendas. De nada vale publicar um bom livro como o "Brasil" (ai o Y…) e deixá-lo morrer nas estantes sem promoção nenhuma. A ideia de lançar um livro para o mercado a ver o que dá, só na Terra do Nunca (e na do Bambúrrio) é que ainda dá dinheiro…se as vampiragens vendem é porque são promovidas, porque a imagem é vendida por todo o lado, e o mesmo se aplica a ovnis Da Vincianos. O exemplo referido de a Bang! não se ter aguentado como publicação impressa é linearmente explicada em termos de marketing (más escolhas quanto ao "pacote" do produto, sua comercialização e sustentação, etc.) e falar de não existirem leitores não o explica nada a montante do problema, sendo apenas um corolário falsamente extraído – há leitores, apenas não se conseguiu chegar a eles com aquele produto.

Para mim o mal é essencialmente este.

Depois os acessórios: a não existência de um mercado de periódicos e a não-profissionalização da escrita, como bem referiste. Porém, este é um mal demasiado geral a todo o mercado literário português, e de modo nenhum se limita à FC ou ao Fantástico; já perdi a conta às editoras, prémios e publicações periódicas, impressas ou electrónicas, que "aceitam", "pedem", ou que mesmo "impõem", contribuições de borla. Depois admiram-se que não há grande qualidade no output, ou poucas submissões; depois admiram-se de morrerem quase todas de morte macaca. Em todos os mercados a qualidade paga-se, nem que seja modestamente, nem que seja de início. No pain, no gain: há que investir para ganhar, promover para ganhar e sustentar, etc. etc. O certo é que o nosso mercado editorial é um velhinho de mão estendida, à espera que lhe caia uma bomba curvilinea de 20 anos. E como a vida nos ensina, para ter alguma coisa só indo à luta…ou bem se pode ficar sentado há espera pela única ou duas que o acaso há-de mesmo fazer cair ao colo. Não é por acaso que a FC, bem como quase todo o mainstream português também anda pelas ruas da amargura a nivel de qualidade: isto é um sistema gangrenado. É urgente ouvir bem o mercado e ir-mo-nos a eles com a espada em riste e gritos de Santiago e S. Jorge, para usar uma bonita imagem à moda.

Concluindo, penso que há lugar para algum optimismo. Nem que seja porque tudo é cíclico. Mas penso ser evidente que estes três últimos anos assistiram a um modesto mas importante crescendo no Fantástico e na FC em particular. Aos tropeções mas vai. E o que é muito importante, vai-se formando cada vez mais a noção de comunidade alargada, e por aí, só coisas boas poderão vir no futuro.

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(Omiti o início do meu comentário, visto ser irrelevante para o conteúdo da “conversa”. A única alteração ao comentário original é a correcção de uma imprecisão inicial, como poderão verificar no link, e que destaquei aqui em sublinhado)

Disclaimer: nenhuma regra de igualdade no tratamento de questões de género, seja literário, de pessoa ou de sexo, foi quebrada, danificada, ou de qualquer forma vilipendiada, na execução deste post.  🙂

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