O Monstro do Revisionismo

Nós, os portugueses, temos uma relação dificil com a memória. É um tema que nos obceca e com o qual convivemos mal. Adoramos história, mas somos selectivos em relação ao que queremos recordar, principalmente se o que ficou para trás não é do nosso agrado.

Da escravatura ao Salazar, das queixas sobre despesismos do Estado até à revelação de quem foi despesista, de pecadilhos de juventude a posts de blogues, há uma tendência revisionista terrivel no nosso peito, um ser desagradável que nos sopra aos ouvidos “apaga, apaga tudo!”. Como se pelo simples facto de não se falar de algo, esse algo não tivesse existido. Como se o que fazemos de mal ou errado não fizesse parte formativa daquilo que somos. Como se assim nos safássemos ao que os outros pensam de nós.

Estou convencido que esta é uma das pesadas heranças do Estado Novo que se faz sentir ainda no mais jovem de nós, um daqueles fenómenos persistentes como à sarna e a estupidez que só talvez a mera passagem massiça do tempo acabe por curar. Ainda carregamos na pele os efeitos de uma censura, de uma coação à espreita em cada esquina, omnipresentes. Mas a ditadura já acabou à tempo suficiente para que sejamos bastante selectivos no que pretendemos esquecer…e obviamente tentamos sempre apagar o que pensamos ser mau para a nossa imagem pessoal.

Ora, uma das caracteristicas da nossa sociedade actual é a disseminação da informação, o que torna qualquer esforço revisionista mais dificil. Antes, a memória era exclusivamente protegida pelos livros e pela imprensa, mas hoje em dia a vivência e convivência nos espaços da Internet prova isto. Porque apesar das aparências, a Net tem uma poderosa memória, não sendo fácil apagar o que por nela passa. Um dia põe-se um post num blog, noutro apaga-se, mas a informação teima em não desaparecer, o texto replica-se, aparece noutros blogues, em simples links de google e não tarda muito vive na memória de todos. Por muito que o não queiramos.

Neste blog garante-se uma coisa: que o mal e o bem, o certo e o errado, as parvoíces e coisas acertadas que forem ditas pelo seu autor, nunca serão apagadas.

Compete a de todas as gerações de portugueses, que se faça um esforço para salvar a memória como um todo. E a cada um de nós em particular que não apaguemos o que achamos que nos fica mal. Mais não seja porque até podemos estar errados e não ter feito disparate algum que o justifique. Ou porque até fica mal perante os nossos congéneres apagar o que todos já viram. A resistência à memória, como diziam os Borg, é fútil. O que importa é melhorar o que somos e fazemos com base nos erros e vitórias do passado, e isso nunca é possivel se nos dedicarmos a apagá-lo.

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One response to “O Monstro do Revisionismo

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