Circulo de Leibowitz – A Quinta Cabeça de Cerebrus, de Gene Wolfe

Pedindo desculpa aos leitores pelo atraso na entrega desta crítica, devida a imponderáveis pessoais, alguns talvez intuidos por vós no meu último post, e com a aprovação dos meus colegas no Circulo de Leibowitz, aqui vos deixo a minha colecção de notas (tenho algum prurido em designá-lo por crítica, embora não seja deslocado fazê-lo) em relação ao soberbo “The Fifth Head of Cerebrus” ou “A Quinta cabeça de Cérebrus” de Gene Wolfe.

Por vezes temos de nos perguntar se, na escrita, a literatura só começa quando se começa a reter informação. Porque contar uma história é um conceito estanque; porque significar algo para lá dos seus elementos, ou seja, a elaboração de um meta-texto, apesar de ser uma composição de figuras de estilo, numa rapsódia em torno de imagens, comparações, metáforas, hipérboles e quejandos, só se torna em algo mais quando há uma forma de veicular esses meios. E é aqui que entra a forma de dar ou revelar a informação.

A Quinta Cabeça de Cérebro (ou Cerebrus, como desejarem), é uma sinfonia em três andamentos. Onde as melodias se centram na caracterização dos personagens principais, e nas perguntas em torno do questão do simulacro. A saber: se o simulacro é verdadeiramente igual ao original, como distingui-los? Será o próprio simulacro capaz de o saber? E o original?.

Estas questões são-nos ocultadas, ponderadas, manietadas e reveladas. Com um perfeito controle sobre o texto e todos, mas mesmo todos os seus elementos, desde a mera junção de palavras ao jogar de significantes e significados temáticos, Wolfe dá-nos a informação que precisamos para construir a história, aos poucos, a conta-gotas. Semeia pistas que só se revelam sê-lo quando ele nos decide mostrar o que afinal lá está (e sempre esteve).

Mas a sinfonia é falhada. Os três andamentos correm numa espiral descendente incontornável. Note-se preliminarmente que se a primeira novela é altamente discursiva, a segunda usa formulações oniricas e a terceira é completamente fragmentária. Porquê? Recursivamente, o tema do simulacro aqui aplica-se: um dos discursos omnipresentes no texto é o da cópia que se degrada. Ao longo do livro, vemos clones que são sempre mais falhados que os seus antecessores, cópias que são originais igualmente degradados, transmorfos que ao se mutarem ficam piores do que eram. Ora, este discurso ostensivo aponta para o que Wolfe quer verdadeiramente significar neste aspecto do romance: que a Memória se degrada com o tempo (algo que o próprio autor revela na entrevistaa Larry Mcaffery para a Science Fiction Studies).

Há uma frase que por vezes digo e que a este livro se emprega perfeitamente:

A Literatura não é para mariquinhas.

Para chegar ao inicio de uma leitura apropriada deste livro é necessário estar disposto a batalhar com o texto, com a história, com os temas, com os próprios personagens. E só com bastante esforço chegaremos ao resultado final do puzzle, à audição esclarecida desta sinfonia. Daí que admita desde já que precisarei de pelo menos mais duas leituras até conseguir ler apropriadamente este livro. Daí que devam tomar esta crítica somente como um mero conjunto de notas introdutórias.

Recomeçando.

Este livro, nascido em 1972 (um ano de excelente safra, do qual destaco “Painwise” de Tiptree ou “Nobody’s Home” de Russ, ainda hoje clássicos do género) começou por ser uma novela (a primeira do livro). Nela seguimos a história de alguém que recorda a infância. Nela conhecemos as dúvidas (maravilhosamente ecoando as nossas) sobre a própria identidade do narrador (eventualmente a ser conhecido como "Número Cinco" mas cujo verdadeiro nome tem sido objecto de muita especulação por parte da crítica; a este propósito, na última secção deste artigo onde usarei alguns "spoilers", darei a minha opinião sobre o enigma) e a dos outros que o rodeiam [usando as palavras do crítico P.Kinkaid ""Sabemos pouco sobre o que o individualiza (nem sequer o seu nome nos é revelado), mas apreendemos muito sobre como ele reflecte os outros]. E confrontamo-nos com o facto de que nenhum dos personagens é somente o que diz ser, ou sequer o que pensa sobre si.

Número Cinco é uma criança, com um irmão e um pai, que vivem numa mansão com um perceptor mecânico, com uma gorvernanta e várias empregadas. O facto de a casa ser um bordel, de a governanta ser uma cientista, de o pai ser (talvez) o original de quem Número Cinco é o clone, e do perceptor ser a cópia cibernetizada do verdadeiro original (ou não), são refracções de um prisma e são paradoxos cuja resolução faz parte do encanto da leitura.

Um personagem não é somente um individuo ou um conceito; não neste livro. Aqui um personagem é um rol de descobertas a serem feitas como quem descasca uma cebola ao contrário, e sob a batuta de um invisível maestro. Por outras palavras, o que eu disse sobre as personagens nem sequer começa a aflorar todas as nuances ou traços dos quais se compõem ou nas quais as podemos decompor, pelo que os convido a demorarem-se na leitura do livro visto ser impossivel um inicio de correcta apreensão do todo ou das partes uma leitura leve, cursória ou fugaz.

Complicado? E como!

O texto desta primeira novela começa (e acaba) de uma forma enganadoramente simples. Aos poucos, através de uma palavra, de um conceito, de uma fala, somos levados a repensar o que julgávamos saber. Algo que é banal numa página, revela-se como um facto totalizante e transformador 2 páginas a seguir. E no entanto, a história é escorreita e legível.

As duas novelas seguintes, para serem lidas de modo minimamente decente, exigirão muito mais do leitor. Poderão perguntar-se se isto não é inimigo da leitura, se não é afastar a maior parte dos leitores. Certamente. Este texto não se quer simples ou linear; este texto pretende-se literatura de alto calibre e, como já referi, a literatura, quando a sério, não é para mariquinhas. Mais: não é só para quem quer, é para quem pode pelo menos alguma coisa. Um personagem secundário da primeira novela parece ser o narrador (ou o escritor?) da segunda e um dos principais da terceira. John Marsch será o Grande Narrador? Quem é V.R.T.? (Este, a meu ver, o grande mistério do romance). E os aliens, existirão ou não? Terão alguma vez existido? Haverá humanos nesta história? As perguntas, fazem-se, vão-se fazendo, e as respostas sucedem-se ao ritmo da leitura, quase sem fim à vista. Curiosamente, e a este propósito, a própria elaboração do romance ecoa o facto: ao sucesso da primeira novela numa das famosas antologias da Orbit, Wolfe foi convidado a escrever mais duas; a segunda foi uma tentativa tão do agrado do editor que eventualmente a terceira foi escrita para compôr o "ramalhete".

Aparentemente, temos uma história e cenário base. Que nos dizem estarmos perante dois planetas, Santa Cruz e Santa Ana; as designações francesas do original existirão porque o autor terá pensado, à época, que havia poucas obras que contemplassem um futuro distante não-americano ou não-anglófono, mas também porque ele acha que um anglocentrismo na colonização do espaço não é verosimil.

A um, com habitantes alienígenas, metamorfos, terão chegado os humanos, num momento bastante anterior à acção das três novelas (mais correctamente da 1º e da 3ª, e num passado relativamente próximo da 2ª). E desse embate social, o resultado terá sido o progressivo desaparecimento dos aliens que ou os aliens se transformaram em réplicas perfeitas dos humanos, substituindo-os ou com eles convivendo, igualmente desaparecendo do mapa (o que explica o discurso pós-colonialista que é uma das correntes subterrâneas do romance); Esta última hipótese, que não exclui em absoluto a primeira, é o que constitui a Hipótese Veil, um importante conceito a reter ao longo de todo o romance. A resposta à questão, apesar de todas as aparências, é de possivel resposta, mas só após lermos completamente o livro e de ponderar todos os seus enigmas. E apesar de ela nos ser oferecida ab initio (a hipótese Veil é correcta e com "pormenores de malvadez"), Wolfe faz e engendra o jogo literário da sua ocultação, primeiro através do questionar da sua validade, e depois tantalizando-nos com argumentos, directos e indirectos, a favor e contra. Porquê?
Porque a verdadeira questão da personalidade nunca é sobre aquilo que ela emula, mas aquilo que ela faz cumprindo-se enquanto ser, algo que é igualmente oferecido no princípio, na primeira novela. E no entanto, é na busca do que se é que nos podemos cumprir verdadeiramente, na luta pelo salvar da correcta memória (se é que tal é possivel). Ou seja, estamos na presença de um quase absurdo camusiano, em que não podemos evitar tentar conhecer a verdade última, mas que também nunca chegaremos verdadeiramente a alcançá-la. Resta a inevitabilidade de ser, seja de que forma for. Ou antes, e adoptando uma postura sartriana, importa a noção de responsabilidade que cada um toma como sua na concretização da sua individualidade, do seu eu-pessoal e do seu eu-social. Não interessa se John Marsch é um alien ou um homem, interesa que ele se comporta como um homem, e que se comporta como um alien. Ou mais correctamente, que se comporta degradadamente como um alien que finje cada vez pior ser um homem, mas cuja importância está no esforço puro de ser algo que sobrevive. Que se comporta como um ser racional que se concretiza nas acções, passadas e presentes.

Complicado? You have no idea.

Todavia, a história forma um todo coeso, embora o seu enredo tenha de ser construído mais pelo leitor que pela sucessão de palavras do texto.

A terceira novela, V.R.T. (nome cujo enigma confesso que ainda não consegui resolver, algo que me faz roer desesperada – e descansem, apenas virtualmente- as unhas) é escrita nos termos acima referidos ou seja de forma fragmentária, dando-nos conta de como John Marsch viajou a Saint Anne em busca da resposta em relação à dúvida gerada pela Hipótese Veil, e do que lhe aconteceu por lá. Atentem que um dos mistérios aqui resolvidos é o da própria identidade de Marsch, mas terão de prestar atenção. E mais não digo, para que possam apreciar a forma da narração e o seu conteúdo.

No todo, este romance é um imenso jogo de expelhos, que poderiamos apodar de expressionista (poderiamos e podemos). O resultado é quase grotesco, tanto a nivel intelectual como emocional, uma espécie de "Gothic Punch" dissimulado e bem à vista (na senda dos próprios paradoxos da história). Um livro muito recomendável, apesar de não para os fracos de espírito.

E por fim, em regime de "lá vêem spoilers", a questão do nome do narrador na primeira novela.
Neste caso, tendo a concordar em absoluto com o trabalho de P.Kinkaid na sua crítica "False Dog" ("What it is we do when we read science fiction", Beccon Publications, 2008) já acima referida, mas penso conseguir ir um pouco mais além, para lá da provisória resposta a que ele chega.
Eis as pistas.
A casa que o narrador habita, é a Maison du Chien, assim chamada por causa da estátua de Cerebrus posta à entrada (ocorre-me agora en passant, que isto faz da casa um Inferno, ou seu simulacro, o que é mais uma das aceitáveis convoluções a que a história nos obriga), e aparece cedo no texto esta referência, a de que a estátua "bem pode ter sido também uma referência ao nosso apelido". Depois vem a citação indirecta quando ele fala do "cão de ferro com as suas três cabeças de lobo". Por esta altura é inescapável referir o nome do autor: Wolfe.
A cena da biblioteca corrobora isto (num outro inescapável aparte, a ida à biblioteca, que é uma das poucas vezes em que o narrador é autorizado a sair da mansão, é altamente alegórica; numa perspectiva de mera curiosidade literária, refira-se que a cidade onde se situa é modelada em New Orleans).
Ora na biblioteca, ou melhor, no seu mais relevante último andar, no topo e onde estarão as obras mais importantes (assim o revela o narrador), o rapaz encontra livros que facilmente descodificamos como sendo obras actuais e verdadeiras de Kate Wilhelm e Vernor Vinge, e que parecem reforçar o W do nome (sigo as versões mais recentes da novela, visto que o texto surgido na primeira a referência ilude-me: "uma cópia solitária de Segunda-feira ou Terça-feira encostada a um livro sobre o assassinato de Trotsky"; quem souber a resposta, diga-o por favor).
Temos Wolfe, portanto, como apelido. Mas e o primeiro nome? será o mesmo do autor (Gene)? A resposta dada por Kinkaid, e óbvia, é de que não; porque como o narrador refere cedo no texto, quando nas aulas o Sr. Milhão faz a chamada, "o meu nome é sempre o primeiro"…e como o nome do irmão é David, podemos presumir que o dele começará por uma das três primeiras letras do alfabeto.
Ora mais pista alguma parece surgir, daí que, na minha opinião o que acontece é semelhante à resposta de relativismo, de tons pós-modernos a que já aludi no inicio desta crítica. É que julgo não importar se ele é A. Wolfe, B. Wolfe ou mesmo C. Wolfe, pois todas as hipóteses, quando ditas em inglês, apontam para significados que são oportunos, justificáveis, mesmo cumulativamente. Um Wolfe, Ser Lobo, ou Ver Lobo, parecem conceitos todos facilmente incluidos nas temáticas, mensagens e intenções da obra.

Por aqui me fico embora muito mais houvesse para dizer. Entretanto, espero que tenham coragem e ataquem de mergulho (e de cabeça) neste livro. É que usar a cabeça nestas cinco pode e deve ser divertido. E se acompanhado por vinho de igual safra, então terão alguns serões de estalo.

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