Relembrando o Pão com Manteiga

Já que está agora na SIC Notícias um programa (Dia D) com o Carlos Cruz a falar de humor (e também António Feio e Bruno Nogueira), relembro o programa radiofónico Pão com Manteiga. Foram manhãs imperdiveis de ouvido colado ao rádio, na Comercial, aos fins de semana entre as 10h e as 13h, em que ele, o Mário Zambujal, Bernardo Brito e Cunha, Eduarda Torres, Orlando Neves e José Duarte, revolucionaram a forma de fazer humor em Portugal.

Foi o programa que abriu o caminho para as modernas formas de humor a que hoje somos por cá expostos, embora me permitam que eu diga que era tão “à frente” que ainda não se chegou aquele nivel outra vez, mesmo que haja humor muito bom por aí à solta, e moderno.

Tinha influências da Mad, dos Monty Python e foi um brilhante exercício de liberdade. Porque o humor antes do 25 de Abril não era assim, e este era espantosamente afastado das tricas politicas que típicas desses primeiros anos a seguir à ditadura. O programa ainda gerou um pequeno império de spin-offs, com a publicação de 2 livros (antologias de piadas e sketches que tinham ido para “o ar”) e uma revista brilhante, cheia de material extra-programa, que embora eu não recorde a quantidade de números publicados, penso que devem ter andado por volta dos 20, algo só superado pelo insuperável e prolífico Vilhena (apesar do estilo ser completamente diferente: o Pão com Manteiga era humor com inteligência, nunca cedendo ao boçal, embora não se possa reduzir as publicações do Vilhena a isto obviamente; tomem dois exemplos:

“Nem sempre o pecado mora ao lado; gasta-se um dinheirão em transportes.”

“Cada vez há menos gente que tenha conhecido D. Afonso Henriques.”

“Quando a luxúria é cometida com uma grande limpeza, chama-se lascívia.”

“Um peixinho vermelho, mergulhado em água a ferver, perde rapidamente a cor.”

e destas eram umas atrás das outras, fora os diálogos, as pequenas histórias que verdadeiras gemas de flash fiction ou micro-narrativa e muito mais). Algures nas catacumbas paternas, ainda tenho uns exemplares a que ocasionalmente volto com sempre renovada alegria para verificar que os conteúdos continuam frescos, actuais e bons. Últimamente a Oficina do Livro publicou nova edição do primeiro volume das antologias, com uma capa demasiado low profile quando comparada com a amarela original, o que talvez o tenha tornado despercebível à maior parte do público, o que é pena. Só arranjei a do 2ª vol., mas se substituirem mentalmente a cor e o número da capa terão uma boa ideia de como será.

Já tenho dito isto em vários sitios e várias vezes, mas volto a dizê-lo: alguém devia fazer um favor ao país, a nós todos e às nossas memórias, tanto pessoais como colectiva, e recuperar as emissões radiofónicas. Ou editando-as em CD, DVD, whatever, ou no minimo colocando as emissões na net para delicia de todos. De borla ou a pagantes, não importa, importa sim é recuperar aquilo antes que morra de morte nitro-ferrosa nos arquivos mortos da Comercial.

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16 responses to “Relembrando o Pão com Manteiga

  1. subscrevo e pago – SE EU PAGO TANTAS OUTRAS COISAS QUE NEM SEI O QUE SÃQO E PARA QUE SERVEM E… MOITA CARRASCO, então retiro um kilito de arroz ao banco alimentar e PEÇO a volta do «PÃO»
    JP

  2. OLHA, VOLTO AQUI PARA ACRESCENTAR QUE, PESEM EMBORA AS MAGNIFICENTES PARTICIPAÇÕES, ESCRITAS E FALADAS, DEVE-SE MUITO AO HOMEM DE RÁDIO CHAMADO CARLOS CRUZ, A EXCELÊNCIA GLOBAL, DEVENDO MESMO SALIENTAR-SE ALGUMAS DAS INTERVENÇÕES -A LEITURA DO “ROQUE E A AMIGA”, V.G.

      • Eu cá estava a ver que algo não batia certo, o “Roque e a Amiga” sempre foi lido pelo Bernardo, desculpem, pelo Sr. Bernardo, é assim que vem nas multas e nas facturas.
        Mas já que estamos a reviver o famoso programa de rádio “Pão Com Manteiga”, recordo a que, para mim, foi a melhor emissão, quando alguém (da equipa) se lembrou de mandar fragrâncias via rádio. Dou comigo a pegar no rádio, que estava na mesinha de cabeceira, a responder aos sucessivos apelos de utilização do olfacto e então ouvia-se um “PFF”, e digo para mim mesmo: Tás parvo ou quê.

  3. NUNCA ESQUECI UMA QUADRA QUE CARLOS CRUZ DIZIA COM FREQUÊNCIA NO PROGRAMA: ESTE JÁ ESTÁ LIQUIDADO
    O TIRO FOI BEM NA TESTA
    JAMAIS COMERÁ CRIANÇINHAS
    NOS CAMINHOS DA FLORESTA
    Grande coincidência! E esta, hem! Há horas de azar.

  4. Como um dos autores do programa queria deixar claro que nada daquilo ficou gravado… Se soubéssemos o sucesso que seria, outro galo cantaria…
    Bernardo de Brito e Cunha (bbc@netcabo.pt)

  5. Peço desculpa a intervenção por dois motivos:
    “…o tiro foi certeiro
    bem no meio da testa
    não comerá mais criancinhas nos caminhos da floresta.”
    (em tom abrasileirado)

    Que saudades tenho do sábado de manhã ouvir “Pão com … manteiga”

  6. Não perdia um Pão com Manteiga! Os diálogos entre Cruz e Zé Duarte eram uma delícia. Nunca esquecerei o episódio passado durante a 2ª Guerra Mundial em que um veterano piloto americano aterra, por engano, num porta aviões japonês. Excelente!

  7. Por acaso tenho alguns programas gravados de 1983, de umas quantas cassetes que resistiram ao tempo. Programas como, História, Portas e Janelas, Só Bocas, Aniversários, Bolas, Fenómenos Estranhos e mais um ou dois que não me recordo agora. Bem há pouco tempo estive a digitalizá-las. Um amigo gravava em Lisboa e enviava-me para os Açores pelo correio. Já lá vão umas décadas, mas o humor permanece actualizado. Está incluido alguns “O Rock e a amiga” de Bernardo Brito e Cunha, que o conheci aqui em 1977 no Musical Açores 77 na Riviera.

    • Luis…!

      Espero que leia isto. Se as cassetes resistiram mais dois anos, será que podemos falar?
      Se houvesse alguma possibilidade de passar os programas que tem gravados para formato digital e de alguma forma partilhá-los, não me importaria nada de o compensar razoavelmente por esse serviço público. E se calhar outros o fariam também. Ando há anos a ver se arranjo gravações do PcM e nada…
      Diga qualquer coisa se achar que isto faz algum sentido.

      Saudações Pãocommanteigais

  8. Há tempos ouvi na Comercial o Nuno Markl dizer que o Bernardo Brito e Cunha tinha uma caixa cheia com gravações do PM e que lhe ia emprestar para gravar e publicar no Youtube, até agora nada. Eu pagava para ouvir: este já está liquidado, o tiro foi bem na testa, não comerá mais…nos caminhos da floresta.

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