Circulo de Leibowitz – O Caçador de Brinquedos e outras histórias

(…) escrevo como uma forma de prazer onde o mundo inteiro é espectáculo. Prefiro mil vezes esse universo exterior, esse universo-como-personagem do que a circularidade do meu umbigo, a poesia sem rima, e todas as temáticas urbano-depressivas sobre conversas de cama e morte de familiares. O quotidiano aborrece-me. Os super-mercados nauseiam-me. Noites de farra aborrecem-me o fígado. Sobre que falar então? Dizia alguém que toda a linguagem é metafórica. Mas a FC é o único género onde a metáfora é realista, onde todas as palavras terão de ser cuidadosamente medidas. Aqui, "um céu demasiado azul", implica a possibilidade do sol se estar a transformar numa gigante branca…

João Barreiros, em entrevista com João Seixas a 31 de Julho de 2007

 

Numa comunidade sofôntica onde o reconhecimento dos vocábulos existentes no próprio idioma fosse algo de satisfatório, e onde o tratamento escrito da realidade tivesse autorização do establishment para ser verdadeiramente especulativo, João Barreiros seria, por esta altura, um escritor muito conhecido. Mas porque a grossa maioria só consegue consumir linearidades bacocas onde o uso das palavras deve ceder ao facilitismo do neurónio desatento, e porque a actividade editorial do género tem sido incapaz de suprir as suas próprias deficiências cognitivas, a obra de Barreiros é uma espécie de tanatropismo, um vírus sem a força replicante, com alguma incapacidade de atingir o grande público.

E sim, estou a usar de um estilo narrativo similar ao do autor para dizer algo como isto: quando o mercado está alegremente inundado de textos de segunda, livros como O Caçador de Brinquedos… caem no esquecimento quando deveriam ser celebrados. Aquele que, até hoje, continua a ser o mais importante livro de narrativas de ficção científica na história literária portuguesa, é difícil de encontrar nas estantes das livrarias, das bibliotecas, e da cabeça dos leitores, embora vá sobrevivendo nas conversas e opiniões das pessoas que por sorte nele foram tropeçando ao longo da vida e, em especial, na bagagem do pouco fandom organizado que vai persistindo cá no burgo.

O Caçador de Brinquedos e outras histórias consiste numa recolha de seis contos e duas novelas interligadas que foram e continuam a ser uma lufada de ar fresco no panorama ficcional português. Mesmo que certos dos seus mecanismos técnicos enfermem de alguns dos problemas próprios de datação, como o uso de figuras da cultura popular a caírem gradualmente no esquecimento (por ex.: Shirley Temple, o urso Fozzy, Mandrake ou Joan Collins), o certo é que todos nós continuamos a saber o que é ir ao supermercado, brincar com brinquedos, sofrer dor de corno ou tomar conta de animais. Experienciar literariamente este tipo de realidades banais de uma forma diferente e inteligente vai-se tornando hoje em dia difícil, e a escrita realista ou mainstream tem sofrido com as circularidades próprias do estilo, tornando-se muitas vezes oca de novidade e baça de argumentação. Porém, a escrita de Barreiros n’O Caçador… continua a explodir com a força de algumas megatoneladas, fazendo terra queimada dos estertores catalépticos dos triângulos amorosos mal resolvidos e do bocejante angst bloomiano. E no entanto, tremo de cada vez que vejo livros como este serem ignorados pelo establishment educativo, preteridos por inanidades mentais como as Manoplas de Kualker coisa… (e sim, estou a falar do Plano Nacional de Leitura).

A narração de Barreiros é sempre trepidante, nunca cedendo ao facilitismo da vazia contemplação umbilical, sem momentos mortos castradores, pondo indivíduos em situações de crise, interessantes e com pormenores empolgantes, muitas vezes humorísticos… corrosivamente humorísticos. Dela podemos ganhar tanto a satisfação empática de ver um ser abjecto a levar um tiro nos cornos como ver em acção a dicotomia entre a liberdade individual e a acção dos poderes corporativo-comerciais, ou a eterna luta entre literatura séria e lixo comercial. Porém, mesmo se tratando de aventuras, a linguagem e o estilo usados nem sempre se revelam acessíveis às mentes sedentas de papinha feita. Casos destes, de incompreensibilidade perante um discurso, não são incomuns, mas deveriam ser menos comuns. Relembro um professor de faculdade, Gomes Canotilho, e de como o estilo em que falava e escrevia era quase impenetrável para as cabecinhas que o ouviam e liam; muitos tinham de puxar dos neurónios para o compreender, e só quando se obrigavam à necessária hermenêutica mental é que alcançavam o nirvana da compreensão escolástica. O problema, como sempre, é o de ler com a cabeça e não somente com os olhos; não é o da identificação dos vocábulos mas o da sua correcta contextualização. E em Barreiros, as situações banais tornam-se autênticas batalhas epistemológicas, tal qual a boa ficção científica é capaz de oferecer.

Não estamos a falar de aventuras filosóficas. Neste livro temos brinquedos que em virtude de um vírus informático se tornam máquinas assassinas, coelhos geneticamente modificados capazes de estraçalhar um homem, andróides sedentos de produção priápica, aliens ansiosos por morrer de gozo extático ao ouvirem ler Harold Robbins ou Charles Beaudelaire. Não se tratam aqui de temas ou personagens “chatas” (nos dois sentidos), enfiados em situações banais no ser e na resolução. Há problemas a serem enfrentados, resoluções difíceis a serem tomadas, éticas e morais de escolha excruciante… mas o que há principalmente é a ideia de que do conflito emerge uma história e que todos, universo inclusivé, são personagens activos. Neste âmbito, podem observar-se coisas curiosas, como o facto de, apesar de as personagens de Barreiros parecerem por vezes actores cujos scripts são rígidos como a mais fria das equações, manietados pela naturalidade brutal da realidade ficcionada, onde o livre arbítrio seria o veículo das soluções, pelo contrário serve para demonstrar-se sempre como parte dos problemas, seja quando um poeta decide matar a ex-namorada que se vai suicidar ou quando um humano decide deixar escapar, não matar, um brinquedo por razões emocionais. O livre arbítrio é, porém, a causa de uma das intensas satisfações que os textos de Barreiros oferecem: os personagens fazem as suas escolhas, mesmo perante o horror ou o êxtase, e é quando assistimos aos tiros, aos gritos, às escapadelas, às perseguições, e ao “final release” que é sempre despoletado pelas micro e macro situações que encontramos as melhores razões para gostar das suas histórias. Outro facto engraçado é a utilização do acaso justificado, algo que Barreiros sabe utilizar como poucos, pois nunca questionamos que alguém aqui seja safo de uma situação na hora H, ou que se seja morto logo a seguir em situação idêntica; o leitor tem de aceitar o acaso porque ele faz parte integrante dos conceitos que formam as próprias histórias, algo a que eu chamo a capacidade positiva de ser redondinho, de não terem, alegremente, ponta por se lhe peguem (no bom sentido), e que é um conceito estruturante da especulação em sede de ficção científica.

Deliberadamente, evitei referir os enredos das histórias deste livro, pois acredito piamente no facto de que se o fizesse iria tirar-vos mais de metade da piada que há em lê-las. Mas posso dizer que se recomendam e muito. Estes são mundos futuros, em que as pessoas são utentes e produtores, escravos e senhores, dominadas por mega-empresas na melhor tradição cyberpunk, aliás a corrente dominadora na FC à época em que foram publicados (entre 1988 e 1994); mundos em que podemos entrever as influencias de Ubik de Philip K. Dick, de Alien de Ridley Scott, de Johnny Mnemonic e toda a produção inicial cyberpunk de Gibson e Sterling, das paisagens de Ballard e Whydham (talvez também de uma irónica distopia urbana a la Edmund Cooper, mas hesito em afirmá-lo). São mundos onde há naves em fuga para lá de Plutão, onde Lisboa soçobra perante um terramoto provocado e televisionado, onde uma ida ao supermercado é uma luta pela liberdade individual, e onde tudo tem de ser negociado desde a mera existência até à mais desejada das libertações. E muito, muito mais.

Um livro para maravilhar os olhos e as gónadas, que faz funcionar sinapses adormecidas? Que mais podem vocês querer?*

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* E se não o poderem comprar numa livraria perto de voçês, ele está disponível por aí na net. Por exemplo, na Caminho ou na Mediabooks.

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