Me Edita Plize

Hehehe.

Este país é engraçado. De uma graça que é por vezes triste, mas engraçado. O tema, já não será estranho aos que por aqui passam, mas vem a propósito destas diatribes aqui na Pó dos livros, aqui no Stranger in a Strange Land, e aqui na Edita-me. Parece complicado mas não é. É até do mais banal possível, que é o verdadeiramente triste.

A raça dos escritores e o resto da malta dos livros, anda cá há uns séculos. Sempre houve espertalhices e esquemas e compadrios e o diabo-a-quatro como é próprio de qualquer área humana. Curiosamente, o universo dos livros sempre foi algo de mais elevado do que as meras trocas comerciais e apesar de tudo hoje continua ainda a poder-se dizer isso (apesar de devermos sempre resguardar o facto de que o óptimo é ter arte & lucros). Ao longo das eras sempre se manteve em cheque a banalização última, o comércio puro e duro, o “toma lá esta gaita qualquer e passa o cacau”. O sistema evoluiu no sentido de proporcionar defesas à parte fraca (o criador) e mecanismos óptimos de fabrico de riqueza à parte forte (Editores e livreiros, e mais tarde distribuidores), beneficiando alguém por todos (o leitor). Há uns anitos valentes que uma espécie de equilíbrio ganhou foros de lei. Para o bem de toda a gente. Mas há sempre quem tente explorar novos esquemas de esticar a corda do dinheirinho. Legais ou não. É normal. E se bem que haja autores espertalhões, normalmente a coisa vem do lado de uma empresa ou instituição. Para isto as editoras são conceitos comerciais ideais. Mas depois são as pessoas individualmente que fazem pressão sobre estas situações, os escritores, os leitores e as instituições que tudo tutelam, favorecendo uma ou outra posição, com a sua oferta de trabalho e com a procura de consumo, com o networking das suas opiniões.

Às vezes gostaria de ser como alguns. Dizer: “eu sou escritor, por isso o melhor a fazer é pagar a uma editora para publicar-me e já está”. Que fixe. É que isso implicaria logo eu ter dinheiro à partida para dispensar em coisas destas; significava também que afinal, todas as outras editoras estabelecidas no mercado e que pagam aos seus autores é que estão a ser burras e que eu teria feito bem mesmo em pagar para ser publicado no melhor espertalhão do mercado. Estilo muita da gente que votou no Vale e Azevedo para o Benfica (conheci alguns). Significaria que eu não precisava de ter dores de cabeça sobre como, o quê e para quê escrever o que escrevo (critérios quase nulos de classificação das submissões, ausência de revisão editorial, etc.). Ah, e ficar-me a marimbar para a forma como o que tinha escrito seria apresentado ao público. Ufff deve ser o máximo de descanso do artista, isto do “quero lá saber o que eles acham”. E estar a marimbar-me também para saber se era publicado por uma editora a sério, com bom nome no mercado ou não, como se aquela coisa do “diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és” fosse coisa dos dinossauros. Gostava de ser assim, porque dava menos ansiedades e agruras. e também menos trabalho.  Claro que não poderia responder pela qualidade do mesmo, mas também não faria diferença porque estaria em modo de “quero lá saber”…

Infelizmente, sou dos que pensam que o ofício da escrita deve ser alvo de remuneração, do livro ao jornal, da revista à e-zine, seja onde for que se trabalhe pela palavra escrita. E também sou dos que acham que o mercado editorial não é uma escola privada para onde se entra pagando a taxa de inscrição. A oferta é muita, a qualidade pouca, e a literatura é algo que só quem a respeita a consegue defender, de maneira que é apenas justo que o trabalho visível e com qualidade, filtrado e trabalhado pelos editores, seja pago. Temos melhores escritores e melhores livros por causa disso. E se for eu fazer o trabalho, desculpem lá, quero ser pago mesmo. É uma daquelas coisas em que gosto de ser esquisito. Gosto de ser pago, por pouco ou muito que seja, pelo meu trabalho e pelo esforço que aplico nele, mas isso é escolha minha. Também sou dos que acreditam que as editoras cumprem uma função cultural, histórica e imprescindível, que não se limita a arrebanhar manuscritos ou que para além disso ainda se atreve a querer ganhar dinheiro à minha custa, de mim, do meu trabalho. Mais que não seja, tem a obrigação de tratar decentemente os seus criadores e de lhes proporcionar o melhor possível. Editora que nem dá os direitos de autor nem oferece o raio do exemplarzito ao autor parece-vos bem? Bom, cada um come do que quer. Foste publicado? Urrah! E agora? Agora… agora… Dave?…Dave?…

Cada vez aparecem mais “editoras” especializadas em novos autores que funcionam acenando aos autores apenas com o “vais ser publicado”. De resto nicles batatóides mais a eventual cobrança do dízimo. Eu cá gostaria de que pelo menos não se chamassem de editoras. É com certeza um defeito meu querer que usassem outro nome qualquer. E não poderia ser POD porque esse tem formas respeitosas de funcionar (como as gráficas, directamente, que é só lá ir e pagar). Gostava que pudessem usar por nome qualquer coisa catchy e comercial como “Loja dos 20€” ou coisa assim mais perto da actividade pura e dura do comércio, do toma lá da cá, mas mais pra lá claro. No entretanto, quem se lixa é o mexilhão. E cá pelo burgo já se sabe: às vezes o mexilhão quer continuar agarrado à rocha. Pois, à espera da onda do mar. À espera sabe só ele do quê. A malta fica a ver da praia, mas não é bonito.

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2 responses to “Me Edita Plize

  1. primo meu!Tenho andado a ler o que escreves!Preciso de tempo,mas vou arranjá-lo,pois conseguis-te aguçar a minha curiosidade!muito bom!Vou dando noticias.kisses…..Rita

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