Desculpem lá qualquer coisinha

É que aquilo do Haiti bule com a cabeça. Só de pensar nos pequeninos números de 1755, só leva a piorar o efeito. O que é que um evento destes faz a um povo? A uma família? A um homem?

Faz lembrar aquela história do “és capaz de visualizar ou ter a noção do que é a História, como era há, digamos, 500 milhões de anos?”

Não dá. Não dá para conceber a realidade destes números fabulosos. Não parecem reais. Nem toda a situação.

Nestas alturas, ponho-me a Imaginar o que sentirão e pensarão os crentes. Crentes no que quer que seja. Deve ser tramado justificar este tipo de coisas.

Nestas alturas também, ponho-me a Pensar, e dou conta de que, fora as ferramentas normais de sobrevivência, uma pessoa não tem capacidades cognoscitivas para racionalizar uma coisa destas. Nem pensar.

Um país completamente arrasado. Centenas de milhares de mortos. Agora imaginem vocês lá no meio. A ter que viver e sobreviver. E pensem que o mesmo ou quase nos pode acontecer, aqui no bucólico berço à beira mal plantado.

E é nestas alturas que eu agradeço à ficção cientifica. Que agradeço o esqueleto racional, a bitola pela qual uma pessoa consegue ter alguma noção da seriedade e gravidade de um evento destes. Um frame que permita ao observador tornar-se distante, sem perder o humanismo próprio. Penso que isto é precioso.

Mas o que dói é pensar “e será que quando o ano acabar, ainda nos lembraremos disto? e da gravidade disto?”

Dói, não dói? pensar que somos capazes de insensibilidade a esse ponto, cortesia da realidade vigente. Aquela que não muda, que é assim e não de outro modo, a real real. O que fará à cabeça de um indivíduo uma coisa destas? Do ponto, portanto, do observador.

E quem senão a literatura poderá alguma vez transmitir uma sombra disto? Eu adoro outros meios de expressão, que não os literários, mas neste caso, neste caso de uma verdadeira Terra Devastada, pergunto-me se não é a literatura, em prosa ou poesia, as únicas formas em que a abstracção, artifício e “flair”, são capazes de dar algo ao observador, o indício possível. Quem senão a literatura para colocar as questões éticas e morais possíveis ao observador?

Daquelas coisas (maravilhosa noção esta, a da palavra “coisa”) que se podem afirmar como sendo “mindboggling”.

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