Ciência e Ficção Televisiva

Há coisas engraçadas. Nos tempos do pulp da Ficção Científica, o cientista representava o absoluto bem ou, se doido varrido, o absoluto mal. Os exemplos abundam. Mas hoje, muito pós-pulp, a figura resiste embora transfigurada na percepção contemporânea da humanidade complexa de todos nós. Mas com pozinhos negativos.

Tomemos como exemplo algumas das séries televisivas de FC do momento. Em Stargate Universe, o Doutor Rusch é um personagem antipático que, apesar de várias vezes salvar a nave e todos os ocupantes, permanece com a sombra de não querer descobrir a forma de todos regressarem à Terra, indicando que a sua busca do saber e uso da ciência vai bem além daquilo que deveria. Em Fringe, Walter é um cientista que no passado fez coisas horrendas em nome da ciência, após o que ficou louco, ou dado por louco e enfiado num manicómio, sendo hoje um personagem que usa o seu génio para ajudar a corrigir todos os males que provocou, muitas vezes indo além daquilo que também deveria. Em Smallville, Lex Luthor é um rapazinho rico normal (e cientista) que vai aos poucos transformando-se num ser amoral e que, já o sabemos, verdadeiramente mau. Em Heroes, todos os super-heróis são frequentemente submetidos à força a experiências, e o único cientista de entre eles, o Doutor Suresh, acaba por ultrapassar os limites, vendendo o seu trabalho e inteligência aos maus, em nome do saber e de uma causa que só ele considera boa. Por fim, em Flashforward, os cientistas que surgem são responsabilizados por uma catástrofe global, estando conotados com o que de pior sucedeu a seguir ao flashforward; não sabemos ainda o que irá suceder mas já conhecemos dois personagens que antagonicamente se posicionam em relação a essa sua responsabilidade; um quer revelar ao mundo serem eles os culpados, o outro quer ocultá-lo – mas ambos partem do princípio que o facto gerador do fenómeno, o facto científico, é algo de negativo. Und so weiter.

O que daqui transpira é a figura do cientista que, na busca do saber, ultrapassa todos os limites transformando-se em símbolo negativo. Mesmo que se considere um “bonzinho”, não deixa de ser um “mau” pelos actos cometidos (passados, presentes ou futuros). Até que ponto isto reflecte uma opinião generalizada do cientista e da ciência, é debatível, embora eu pense que seja um fenómeno relacionado com a imagem de biocatástrofe presente que se tornou assente nos media e nas pessoas em geral. Passou-se de culpar os políticos, os governantes e os grupos económicos (alvos tradicionais), para um nível acima. Hoje culpa-se o saber, a ciência e os que por ela nos deveriam ter salvo dos problemas que o mundo ainda tem e fabrica. Culpam-se os cientistas. Passámos de uma confiança desmesurada no progresso, nobre sentimento filho da revolução industrial, para uma ubíqua desconfiança perante o mesmo.

Este fenómeno, para além de pouco correcto (como bem sabemos hoje, não há culpas solteiras), é também perigoso. Qualquer demonização simplista é perigosa. E que grande parte da ficção especulativa televisiva alimente e perpetue isto também não me parece saudável. Mas lá que é um reflexo do nosso tempo, lá isso é.

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