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O livro é muito giro, um dos poucos romances de Fredric Brown, mais conhecido entre nós como autor de divertidos policiais, mas nos EUA também como um dos mais fabulosos autores de ficções curtas, ou do que eles chamam de “vignettes”. A tradução tem a marca de excelência do saudoso Mário Henrique Leiria, que nos brinda com algumas passagens assombrosas. Vejam só esta da pág.64 a título de exemplo, onde é dada a palavra a Alf Billings, um carteirista londrino:

Tinha posto os butes fora da prisa, depois de uma mesada de galheiro, e desamparava um quiosque onde tinha mamado um balde. Estava na tesa. Mas eu cá não me enrasco. Topei um meco embasbacado a pedalar pelo beco, um gajo pisa-flores com ar de recheado. Tosquei marmelada. Deitei os lúzios e não vi pasma. Havia um verdeal na tampa de uma cafeteira, mas eu não tinha ainda topado muito parlapié sobre esses pássaros. E, co’s diabos, tinha que jogá-los se queria arranjar pasta para ter onde deitar o coiro à hora das dormideiras. Portanto, chego-me ao pato, e limpo-lhe a gaveta…” *

Curiosamente, o romance (originalmente intitulado “Martians go Home!”) parece falar indirectamente dos fenómenos ou efeitos perniciosos da Internet (sim, que este mundo virtual não é só coisas boas), apesar de ter sido escrito numa época em que a rede nem sequer fora ainda pensada.

O herói é um escritor de ficção científica atravessando esse árido e exasperante deserto do bloqueio de escrita (vade retro, cruzes-canhoto!) e um dia depara-se com a úbiqua presença de milhares de homenzinhos verdes, todos iguaizinhos uns aos outros, detentores de uns modos algo brutos e dados a demasiada familiaridade para quem os humanos eram somente divididos entre Zés e Marias, numa nivelação gnóstica superior até à mais histórica das ditaduras do proletariado ou à mais facínora das concatenações nazis. Estes marcianos (pois que outra coisa poderão eles ser senão isso?) não só apareciam e desapareciam de todo o lado como eram impermeáveis a ameaças de qualquer espécie. Com a agravante de serem uns terriveis coscuvilheiros e linguarudos.

Ora, a grande catástrofe que estes marcianos provocam é a da falta de privacidade: eles estão em todo o lado, aparecem onde e quando querem, e tagarelam como as piores das comadres.

Depressa o mundo fica à beira da catástrofe…

… mas claro que quando a história acaba, vai-se a ver nada mudou grande coisa, antes ficou pelo mesmo de antes. Ou talvez o melhor seja mesmo ler o livro. É que é mesmo uma grande risota pegada, com a vantagem de não estar lá ninguém que a gente conheça. Anónima ou otherwise.

Se isto é Ironia? Pois é. Se fossemos a falar destas coisas a sério não seria a mesma coisa.

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* Não, não irei traduzir para os Cansados do Neurónio, mas atendendo ao desuso de certas expressões do calão lisboeta em que esta passagem é modelada e à especificidade do tema do romance, não me importo de dar as seguintes achegas: pasma= polícia; cafeteira= táxi; verdeal= marciano. E chega.

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