A Ficção em Portugal Vende? – Apontamentos e Questões

Diz-se demasiado à boca cheia que a Ficção Científica em Portugal não vende.

Como eu suspeito desta afirmação. E mais: como ela é tão absolutamente não científica e não demonstrável. Nenhuma verificação é realmente possível quanto aos seus elementos, de modo que questiono em grande parte a sua veracidade. Não digo que até não tenha alguns pós de verdade, mas como podemos elaborar 40 teorias e explicações com base nessa afirmação quando pura e simplesmente não temos dados que a confirmem?

O que sabemos vem (da boca fechada) das editoras. São afirmações nunca substanciadas por números oficiais, por estatísticas fiáveis, por factos. E há muitas razões possíveis para isso acontecer, desde as negativas (falta de interesse em publicar o género, em pagar os direitos aos autores, etc.) às positivas (querer investir noutros géneros e autores, em obras mais visíveis e que exijam menos marketing *, etc.). O que interessa é que para todos os efeitos, ninguém a não ser as editoras pode ter uma noção do que se passa a esse nível, e a História demonstra-nos como ninguém pode ser confiável quanto a afirmações não substanciadas, pelas mais variadas razões.

Por outro lado temos factos engraçados.

Durante cerca de 30 anos, entre os anos 50 e os 80 do século passado, houve pelo menos uma colecção de FC que vendeu como a “uva mijona”: a argonauta. As pessoas faziam esperas aos livreiros para os adquirir, iam regularmente às livrarias à procura do "último argonauta" e ainda hoje todos se lembram disto. Nesse mesmo período todas as grandes editoras tiveram colecções ou publicações regulares de FC e muitas das pequenas também. Por outro lado, hoje em dia, de uma forma ou outra, todas as editoras vão produzindo alguns títulos, de forma completamente casuística na maior parte dos casos, embora numa produção incipiente.

E a FC em Portugal não é capaz de vender porquê?

A par disto, autores nacionais regulares no género foram zero (apesar de podermos tomar em conta que João Barreiros é um filho declarado desses tempos, o certo é que a sua publicação nunca foi muito regular, e só mais a partir do fim dessa época). Periódicos que versassem ou incluíssem o tema, igualmente zero. Criticas zero. Exposição pública de FC literária zero (honrosa excepção aos obituários de alguns nomes de proa, se bem que nem sempre a nível de qualidade – Heinlein, Clarke, Ballard – embora eu culpe o fenómenos à acéfala existência de serviços internacionais noticiosos, sobejamente canibalizados pela imprensa nacional).

Curiosamente, nessa época dourada que atravessou a ditadura e a revolução de abril, um certo sector da literatura, ligado à esquerda política, tinha a FC em alta consideração. Figuras como Natália Correia, Ribeiro de Melo, Isabel Meyrelles, todas ligadas aos círculos surrealistas, eram de uma certa esquerda, e foram responsáveis por algumas tímidas tentativas da sua legitimação, se bem que não através da produção literária. Um sector politico-literário que sofreu com o tempo e as modas, bem como com uma persistente erosão política e intelectual por parte de figuras políticas e literárias de direita que desde (olha que facto giro) os anos 80 até hoje, se ocupam sistematicamente em denegrir e relativizar toda a produção literária conotada com a esquerda em geral, mas especialmente com a esquerda próxima a esses autores. Aliás, é também curioso que a outra esquerda, tenha sido igualmente a responsável pelo suposto canto de cisne da FC em Portugal, através da editora com ela conotada, a Caminho (que com todos os defeitos, foi a primeira a publicar autores portugueses com regularidade).

Durante muito tempo, entre os anos 90 e a data presente, quem falou publicamente de FC, para lá dos poucos autores portugueses que entretanto surgiram e das jovens editoras que surgiram recentemente no mercado, nos últimos anos? Sempre casos pontuais, um ou outro cientista (embora muitos mais a dizer que “tal ou tal” já não é FC). E curiosamente, o que até parece um contra-senso, vemos nomes mais ligados à direita politica que à literatura (Nuno Rogeiro e Jaime Nogueira Pinto ocasionalmente professam o seu gosto pela FC) a fazer o mesmo (confesso que fora a Natália Correia, que já morreu faz tempo, nunca ouvi alguém ligado a política de esquerda falar bem de FC – mas isto é apenas um fait-divers). O que interessa é que passou-se de um estado em que falar de FC era indiciador de cultura para o ser, hoje, indiciador do reverso.

Todos estes factos geram importantes conclusões cientificamente demonstráveis como:

– ser perfeitamente possível vender FC em Portugal;

– esse público que comprou muita FC ainda existe, mesmo que algo ou muito envelhecido;

– que toda uma geração foi exposta à FC escrita e que ela ainda existe em circulação, seja na casa das pessoas, em alfarrabistas ou simplesmente no imaginário ou "memória das estantes lá de casa"

– que a política do burgo está também metida neste imbróglio (como aliás em tudo o que por cá acontece – vantagens e desvantagens de sermos um país pequeno), e que as tomadas de posição entre as hostes da inteligentsia nacional, as editoras, as distribuidoras, os retalhistas, não é e nunca foi inocente, o que se reflecte também nos interesses, no output geral do mercado, etc., o que é perfeitamente natural e transversal a todos os sectores económicos da nossa sociedade (e a cultura não é diferente).

Isto são somente algumas das coisas que se podem inferir, com um certo grau de certeza, sobre o pouco que realmente se sabe. Mas há mais, coisas que deveriam ser reveladas e questionadas. Como saber quem eram à época as pessoas responsáveis pela compra de direitos de obras de FC em Portugal? Que ligações tinham nas ou com as editoras (todas e as que publicavam FC)? Quem nas editoras decidia a publicação de obras de FC e em que termos? Com que grau de conhecimento? Ainda por aí andam ou foram substituídas e por quem? E qual a importância do retalho e das suas mudanças no assunto? Se os grandes espaços tiraram a maior fatia do mercado aos livreiros, como se reflectiu isso na FC? Quanto se vendia, como-quando-e-onde?

E voltamos à questão dos números, pelo que abandono esta linha de pensamento. Muito mais poderia ser perguntado.

No entanto, vamos partir do princípio que a FC é um bicho que não se vende, com base nas impressões gerais que são geralmente lançadas indirectamente a público. E que tal questionar isto um pouco através de perguntas verdadeiramente pertinentes?

Dizer que é mau vender 300 ou 500 ou 1000 exemplares de uma obra (números normalmente atribuídos em conversa informal às vendas quanto a obras de Ficção Científica) é ignorar voluntariamente, entre outras coisas:

– o peso que essas vendas terão no total da tiragem, no lucro da editora, de todos os intervenientes do mercado e, também importante, nas taxas de exposição e re-leitura;

– que há sectores a sobreviver com vendas e tiragens bem inferiores;

– a quem são vendidos esses números?

– que peso terão as decisões práticas: o preço de venda? o tamanho das fontes, as ilustrações das capas, a qualidade do papel, o volume dos tomos? e a comparação com outros géneros a nível de exposição nos escaparates, na publicidade de rua, nos media? que estratégias foram usadas para promover essas vendas? iguais para toda a gente? para todos os leitores? com os mesmo acessos aos media, à critica, ao olho do leitor?

– e que taxa de aprendizagem há quanto a essas realidades dentro das próprias editoras? que foi feito para esses números serem mantidos ou aumentados, se o foi?

Depois geram-se outras perguntas:

E as estratégias de compra das obras que são publicadas serão as melhores? Quem aconselha e quem decide? Com base em quê? A maior parte dos zunzuns ouvidos no mercado são no sentido de ser o próprio meio em longo processo de autofagia de opiniões com autocráticas decisões claramente assentes em números de vendas no exterior e em visibilidade nos media (curiosamente, a visibilidade nos media do estrangeiro terão aqui grande importância, quase tanta como a nacional). Isto é suficiente? Para o curto e para o longo prazo?

Tudo isto e muito mais tem uma terrível importância, e o que vemos muitas vezes por parte das editoras é um "saber" casuístico e de joelho, às vezes certo mas muitas vezes falho ou desfasado com a realidade conhecida, onde abundam os pequenos sucessos, algumas óbvias falhas (embora nem sempre óbvias para quem deveriam sê-lo) e um grande, grande silêncio. Nos números, claro.

Por vezes também vemos que quem no meio sabe desta "ciência" dos livros, não está ligado à FC nem nunca esteve, ou com o passar dos anos, de algum modo se desinteressou da área. Esperar o quê? Que em época de contenção de algibeiras se aposte em mercados novos? Que novas editoras e novos editores tenham o saber (ou know-how como dizem os cromos) já feito em relação a estas e outras realidade tão importantes para a venda da literatura em geral mas especificamente tão importantes para a de género já que é um nicho especializado do mercado em qualquer lado do mundo? Que seja possível a pequenas editoras fazer de um género, a todos os efeitos literariamente invisível entre nós, um sucesso de vendas? Milagres, claro, são sempre possíveis como nos provou a rainha santa, mas não me cheira que devamos ficar de mão estendida à espera deles.

E poderíamos até argumentar algo diferente: há mesmo crise no negócio dos livros? e números? até que ponto é que essa crise é resultado de uma saturação da oferta? e há demasiados títulos em geral ou demasiada tiragem? é um problema geral ou só do género FC? se não, em que percentagem, se comparados os mercados haverá diferença? E as dificuldades económicas serão das grandes editoras ou das pequenas? Quais os dados reais da crise?

Números. O raio dos números.

E se boa parte do que se passa for muito simples: que quem tem meios para editar FC com sucesso e lucro for quem não o faz? Olha, de repente isto até faz algum sentido.

É bonito falarmos, como muitos fazem a propósito do negócio do livro em geral e de tudo FC, fazendo referência exclusiva à Saída de Emergência e à Gailivro, as editoras mais visíveis quanto ao género (esquecendo que vão havendo ocasionalmente outras), e normalmente referindo que a Leya é o bicho-papão do mercado português. Cum granum salis, por favor. Há de facto um economicismo bacoco a invadir toda a sociedade, mais visível nos grandes grupos mas também por serem mais fácil alvo do que alvo a sério. Porque até as pequenas editoras sofrem dos mesmos problemas, embora com dimensão e práticas diferentes, mas que muitas vezes levam ao mesmo. Certo certo é que, em termos de Fantástico, temos de recordar que a Gailivro não é a Leya, apesar de lhe pertencer; a Gailivro não determina a estratégia económica do grupo, pelo que o poder decisório quanto ao publicar não é igual. Aliás, a aposta da Gailivro até tem sido, com algum sucesso, na Fantasia, e só ultimamente em FC. Assim como a Saída de Emergência que, publicando alguma FC há um pouco mais de tempo (mas também em números irrisórios) é, apesar de tudo, uma pequena editora. Pelo que a questão de publicar FC é, para ambas essas editoras, algo de marginal. As práticas economicistas apenas são aparentemente diferentes, mais visíveis nuns casos que noutros, por força e peso que cada um tem na taxa de penetração do mercado. Por alguma razão se ouvem poucos leitores a protestar contra a Leya (apesar de os haver, e por norma fazem-no em defesa dos livreiros, um pouco na esteira do que tem acontecido entre estes em relação à FNAC – e as queixas dos editores em relação a esta~existem mas não são ferozes, quando o que justifica a posição em relação à Leya, sê-lo-ia do mesmo modo à FNAC). As vozes que se ouvem mais são dos que se sentem lesados directamente por certas práticas comerciais e de gestão de grupos como esse, o que não é inocente (se bem que muitas vezes sejam queixas pertinentes e cheias de razão, há telhados de vidro em todos os lados, algo que é bom não esquecer: e a imensa mole de autores com direitos por pagar, anos a fio ou nunca, tradutores e ilustradores sub-pagos, por exemplo, práticas que são sobejamente referenciadas na história da edição portuguesa dos últimos 50 anos, pelo menos? e etc.). Por enquanto, os leitores estão a borrifar-se para essas guerras, mas a moda de bater na Leya parece ter vindo para ficar, pelo que não espanta que acabe por ter os seus efeitos, pelo menos até a Leya ser vendida e desmembrada como todos temem e esperam desde que ela apareceu. Como o meio do Fantástico não tem estado ligado a qualquer outro grande grupo, também não faz muito sentido chamar as práticas dos outros à questão não é? Penso que devemos manter alguma perspectiva em relação ao assunto.

Mas que saberes editoriais governam o mercado da FC, com que anos acumulados de experiência de mercado contam as pequenas editoras? Poderão dar-se ao luxo de serem arrojados e gastar rios de dinheiro na promoção daquilo que para todos os efeitos práticos é um mercado potencial mas que precisa de ser trabalhado? O mesmo aplica-se seja à Gailivro, à SdE, à Livros de Areia ou quaisquer outras (ignoremos por completo a questão de editoras não-editoras, "vanity presses” e similares, que funcionam num campeonato, muito diferente, não passíveis de inclusão nesta análise embora as suas acções constituam uma erosão nefasta no fim das contas). Estas editoras vão mantendo algum interesse pela FC mas apostam claramente noutras áreas. Fazem-no pela razão óbvia da sustentabilidade económica que sabem e têm capacidade de fazer. No último ano e para este, os números da FC publicada são um pouco melhores, mas é de perguntar se não será por mero arrasto do sucesso comercial de certa Fantasia. Ou seja, zero de uma verdadeira aposta em FC.

A hipótese da “pescadinha de rabo na boca” é real mas não convence quanto à inexorabilidade, visto que a lógica é corrupta. Não se vende porque não se publica, não se publica porque não se vende. Ora bolas, se ninguém tivesse ficado convencido a vender o raio do Dan Brown e da Rowling, eles não teriam sido fenómenos de venda. E o mesmo para qualquer autor ou livro que existam no mercado, seja em que género for. Alguém tem de apostar em produtos desconhecidos de vez em quando. É uma questão de querer, de vontade. Ao que uma estratégia de mercado muito deficiente se junta com traços muito distintos. Se as pessoas comprarem pouco porque se vendeu mal, como é? Quem publica FC não o faz nos melhores termos, nos mais eficientes ou sequer com alguma eficácia. Os poucos livros declaradamente de FC que surgem no mercado nem são comercializados abertamente como sendo de FC. Ou se são, alguém (desde as próprias editoras aos livreiros, aos empregados destes) arranja formas de que não o pareçam. As capas não mencionam o género, ou fazem-no de forma deficiente; por vezes até são claramente enganadoras, sugerindo “literatura mainstream”, policiais, romance histórico, etc. E os livros também surgem timidamente nas livrarias, grandes e pequenas, escondidos nas secções de história, de esoterismo, de romance, de policial, ou pura e simplesmente nas estantes ocultas, mais baixas, menos atractivas e fora dos escaparates centrais. Curiosamente, onde aparecem agora por todo o lado as "Fantasias" de vampiros domesticados, por exemplo. É de admirar que estas tenham começado a vender mais? Se um livro de FC, ou conjunto deles, for promovido em pé de igualdade com qualquer outra grande promoção, o que acontecerá? Ninguém sabe, mas também ninguém parece disposto a querer saber. E é possível como nos provou a Europa-América no fim dos anos 80 e nos 90, que pequenas acções de visibilidade ajudam às vendas da FC: quem não se lembra dos escaparates rotativos, em todas as livrarias, com os livros da sua colecção de FC? E vendiam, com esse simples esquema de exposição que aos poucos foi sendo apropriado por outros géneros, quando as editoras viram que resultava; um ombro-a-ombro que tem hoje o resultado que se sabe.

Por outro lado, até que ponto os correntes modelos de negócio que gerem as grandes e pequenas editoras são então relevantes para a falta de visibilidade da FC literária no nosso país? E os das cadeias de retalho, nos grandes e pequenos espaços livreiros? Até que ponto os seus profissionais podem ou não ser apontados como responsáveis dessa mesma falta de visibilidade e da falta de interesse do mercado?

É que é fácil passar a bola para as mãos de quem não detém realmente o poder decisório no acto de publicar e no acto da venda. Os escritores terão quase nenhuma (a obra ser boa nunca foi relevante para o ser-se publicado, como prova a história, o mercado,qualquer leitura ou ida a uma livraria). Os críticos, de há muito que estão completamente cilindrados e fora da equação (em parte graças ao que já apontei, de uma certa relativização de tudo o que é de esquerda em termos literários, onde tradicionalmente havia alguns – e é ver quem está nos júris dos prémios, quem à cabeça das editoras, das distribuidoras, das revistas literárias, etc, para ter uma visão razoavelmente boa do assunto); há alguma relevância atribuída agora aos blogues e às redes sociais, mas é fenómeno demasiado novo pelo que ninguém, nem mesmo os editores, tenha clara ideia da influência real quanto à compra. Entretanto espera-se que tenha alguma (e é natural que tenha, mas não tão grande quanto se espera).

E os leitores? Até que ponto realmente pesam nas decisões de que livros são publicados? E no caso especial da Ficção Científica? Ou de um modo gritante mas diferente, na Fantasia? Não andarão a ser tratados como uma multidão acéfala e ignorante? Não estarão a consumir aquilo que se lhes dá? E não será que isto está mais ligada à questão dos best-sellers serem, reconhecidamente, obras que exigem pouca triagem mental?

A este propósito, é por demais propalado e sabido – a falta de números aí não é tão gritante – que os leitores do sexo feminino comandam o mercado da compra. E a seguir não serão os mais velhos a par dos mais novos? Não é aí um bom lugar de aposta para as editoras no que toca à FC, sendo aí que se encontram os que antes compravam FC e aqueles que terão maior apetência por ela? E os seus gostos ditam mais as editoras ou não será antes o contrário? E será mesmo verdade que o publico feminino tem menor apetência pela FC? Que factos consubstanciam tal afirmação? Eu ganhei o gosto pela FC da minha mãe, disso sei eu, mas e os outros? Em época de igualdade, parece-me arrojado ou impensado afirmar tal coisa. Duvido que a diferença, com números fiáveis, se revele significante, mas quem sabe? É certo que os bebés meninos desmontam mais depressa os brinquedos e que as meninas os vestem com mais apetência, mas por outro lado, quando crescem, tiram mais licenciaturas em ciências que eles. É que não podemos confundir análises não olhando para aspectos importantes. Como o de que o sexo feminino compra mais best-sellers sim, mas a FC está muito longe de entrar nesse mercado, enquanto a fantasia tem lá esse pezinho. E são os best-sellers a comandar a publicação. De modo que não se poderá afirmar com leveza que o sexo feminino não tenha apetência para a FC. Acreditarei nisso com números fiáveis (por falar nisso, pergunto-me se haverá números para a FC consumida noutras áreas como o cinema, o que daria talvez um indício, se bem que nunca um verdadeiro indicador).

E qual a importância dos consumidores não conservadores e dos outros? Que números para as diversas categorias de consumidores?

É também fácil dizer que a iliteracia impera, mas é só ver os dados da Pordata, ainda com muito por esmiuçar, mas que revelam por exemplo este bonito indício (se bem que não um verdadeiro indicador): que os números de leitores e de consulta de livros em bibliotecas era em 2003 o dobro do que era em meados dos anos 60. Não se lerá hoje mais e melhor (apesar de sabermos que boa parte deste impulso é devido ao incrível aumento de alunos universitários nesse mesmo período?) E se esses leitores não apanham a FC não será mais lógico pensar ser em grande parte por falha da oferta, que se sabe deficiente nos últimos 20 anos?

Esgrime-se por vezes a existência de uma iliteracia funcional, conjugada com uma suposta dificuldade inerente à compreensão dos textos para explicar uma certa aversão do público em geral à Ficção Científica, mas o certo é que as salas de cinema estão apinhadas de gente nos filmes de FC, que vivemos numa época em que toda a gente se baba com aparelhómetros e em que o computador pessoal ameaça ser mais ubíquo que o automóvel. É verdade que há uma certa dificuldade, que já tenho referido, na compreensão geral do discurso escrito na FC, mas ela abrange e atinge de igual modo os letrados funcionais, gerais, académicos ou estudiosos. Aliás, a experiência de qualquer pessoa demonstra isto; basta ouvir qualquer influente literário da praça perante a menção das palavras Ficção Científica num discurso ou conversa banal e serão incontáveis as vezes em que a reacção é arrogante, depreciativa e em regra absolutamente desconhecedora do que fala (e terem “ouvido falar” no Asimov ou no Clarke, desculpem lá, não conta). O máximo de respeitabilidade que o género ainda vai demonstrando é o que resta de ter existido a colecção argonauta, na memória acerca dos surrealistas dos anos 60 e no grande marketing estrangeiro que tem reabilitado o Philip K. Dick (estranhamente, também Robert Silverberg parece ter alguma patine de credibilidade, embora eu atribua isso mais ao facto de ter sido dos autores mais traduzidos entre nós e a algum acaso que outra coisa). Ou seja, o mercado literário no geral desconhece em absoluto o que se faz lá fora. E se tem de se socorrer de algum indicador, vais aos puramente economicistas (quem não sabe é como quem não vê): números de vendas (especialmente nos EUA e se conjugados com os de Espanha – uma espreitadela às revistas de nuestros hermanos dá-nos um excelente indicador do que por cá acontece, tanto em FC como na Fantasia e no resto), e exposição nos media, nomeadamente no cinema, e com o recente boom de interesse nas séries, na televisão (um fenómenos que está a começar). Portanto, teremos os best-sellers e só com muita sorte aalgumas obras de qualidade. Clássicos da FC ou toda a média de bons livros antigos e recentes, bem acima de qualquer literatura realista por aí exposta, fica necessária e irremediavelmente de fora. Como contrariar isto?

Perguntas, perguntas, perguntas.

Bom, conversar com poucos ou quase nenhuns dados é sempre bonito, mas em última análise, irrelevante.

Enquanto eles não surgem, para acabar com decisões atrabiliárias que comandam o mercado do livro em geral e da Ficção Científica em particular, só podemos dizer o seguinte:

É continuar a ler e a falar e a exigir mais. E como sempre, cruzar os dedinhos à espera que quem tenha dinheiro e influência se interesse pelo caso – sempre assim foi e continuará a ser por muito tempo. Mas compete-nos a todos, se gostamos de ler e de FC, o dar uma mãozinha.

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Uma questão paralela a tudo isto:

O certo é que anda toda a gente muito preocupada em falar de Fantástico em geral, mas a FC não é fantástico. Nunca foi, mesmo em termos de publicação. Bolas, nem a fantasia é Fantástico. Andamos muito acomodados com a designação, que é aliás muito recente. Até há 2 ou 3 anos, ninguém falava em Fantástico. Existia FC, e quem a defendia defendia as cores da Fantasia e do Horror, bem como do Fantástico tradicional (mescla destes dois últimos). Será isto útil? E até que ponto? Estará para durar? (tenho as minhas dúvidas, mas reservo o julgamento).

Temos todos sido culpados disto. Mas o certo é que ninguém sabe o efeito desta alteração de percepção de um meio que, para todos os efeitos, poucos perceberam, poucos alguma coisa percebem e poucos querem perceber.

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Nota Final:

este artigo vem no seguimento de alguns posts importantes que se viram na net nestes últimos dias, se bem que o seu conteúdo já me ande a bailar no cérebro há bastante tempo. Notoriamente no Blade Runner de João Seixas (da Livros de Areia), mas também no Stranger in a Strange Land de Safaa Dib (Saída de Emergência). Ambos dão opiniões e suscitam questões que ora convergem ora divergem das que eu expús neste texto, sendo de consulta mais do que aconselhada, inclusivamente as respectivas caixas de comentários.

No Blade Runner:

http://spaceshipdown.blogspot.com/2010/04/algo-que-se-perdeu.html

e

http://spaceshipdown.blogspot.com/2010/04/ficcao-cientifica-os-porques-e-os.html

No Stranger in a Strange Land:

http://retratos.wordpress.com/2010/04/14/prudencia-editorial-ou-a-falta-dela/

chamo a atenção aos leitores para o facto de, apesar este post de Safaa Dib pouco ou quase nada ter em relação a este meu artigo, a sua autora indicou na caixa dos comentários alguma insatisfação pela sua inclusão neste espaço. Não será daqui retirado pela simples razão de o revisionismo, social ou pessoal, dos meus actos e escritos não ser algo que eu faça, por uma questão de princípio. A sua leitura não é importante, para o tema que debato, e das questões que me suscitou poucas terão aqui relevância.

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* por favor, não confundir marketing com publicidade

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4 responses to “A Ficção em Portugal Vende? – Apontamentos e Questões

  1. Atenção, que o maior conhecedor de FC, "à direita", é o António Marques Bessa, escreveu inclusive um livro sobre o tema (publicado pela Europa-América).Curiosamente embora sendo de direita é um grande apreciador da FC de Leste.

  2. Caro Flávio, não comento sobre as qualidades de conhecedor de Marques Bessa, nem as de qualquer outro nome referido no meu texto. Aliás, de há muito que não gosto desse tipo de afirmações peremptórias, pois a experiência diz que o tempo dedica-nos sempre muita atenção a provar-nos o contrário do que afirmamos. Mas conheço o pequeno livro em questão, e trata-se de um apanhado generalista da história da FC feita em termos muitos gerais, cursórios e conservadores, como compete ao espaço e colecção em que foi publicada. É até dos poucos livros de não ficção que existe no mercado, se não for mesmo o único em termos de apanhado histórico do género. E falta tanto que se publique por cá nesse aspecto…Ao contrário de muita gente, para mim é completamente irrelevante ser-se de direita ou de esquerda para apreciar literatura ou FC, isso ou sequer gostar da personalidade de autores, algo que obnubila muita crítica e resenha da nossa praça. Tenho as minhas oções políticas como toda a gente tém ou deveria ter, mas tal não me põe palas nos olhos para apreciar intelectualmente o que quer que seja. O que refiro no artigo é que num meio tão claramente dominado pelas opções do mercado, a política também importância nas mais pequenas decisões, e isso deve ser sempre tomado em conta.

  3. "Por alguma razão se ouvem poucos leitores a protestar contra a Leya (apesar de os haver, e por norma fazem-no em defesa dos livreiros, um pouco na esteira do que tem acontecido entre estes em relação à FNAC – e as queixas dos editores em relação a esta~existem mas não são ferozes, quando o que justifica a posição em relação à Leya, sê-lo-ia do mesmo modo à FNAC)"Nuno, aproximar a FNAC da Leya é um argumento que cai por pés de barro e pelas evidências. A mais gritante: já te perguntaste porque é que a Leya precisa URGENTEMENTE de comprar livrarias próprias? Porque, apesar do que os "editores" possam criticar na FNAC, ela nunca impediu a entrada de novas e pequenas editoras no seu circuito. No nosso caso, posso-te dizer de forma peremptória que existimos desde Fevereiro de 2006 quando a FNAC aceitou a entrada do "Da treta", e sobretudo desde Setembro desse ano quando a FNAC passou a comprar-nos livros em conta firma por decisão DELES. Agora pergunto-te: quais seriam as nossas chances de entrada numa cadeia da Leya? A Leya entrou no mercado a matar: provou-o no braço de ferro para a entrada na Feira do Livro de Lisboa em 2007. Por essa altura, ouvi na TSF o CEO da holding para a area da edição (esqueço-me agora do nome dele) dizar claramente que a Leya agia e falava a uma só voz (subentendo-se: a dele). Afirmares que uma editora que faça parte da Leya funciona de forma quase autónoma, quase independente, independente até de estratégias económicas, é um erro (vide o caso da saída de editores de novas chancelas do grupo como a Oficina do Livro e a Asa).Como pequeno editor só tenho a dizer uma coisa: pena por não haver MAIS FNAC; receio de que haja MAIS LEYA(s).Pedro MarquesLivros de Areia Editores

  4. Já vou mesmo com sono, visto que vou na terceira correcção a esta resposta.Olá Pedro. Como faço notar no post a seguir a este, e como podes ler correctamente na passagem transposta, eu comparo mas não relaciono os binómios Pequenos editores-Leya e Pequenos livreiros-Fnac. É uma diferença nada súbtil. A posição de queixa é semelhante se olharmos de uma posição externa, ou seja, pequenas instituições queixam-se das grandes. É muito simples e muito pouca elaboração para além disso era necessária ou foi para o meu texto chamada.Mais, quando en passant digo que as queixas dos editores em relação à Fnac existirem e não serem ferozes, talvez devesse ter sido mais explícita, mas continua bem como está.Quanto à Gailivro, claro que ela funciona de forma não autónoma, mas como sabes, a partir de certo ponto, será o seu editor a sugerir e ter de justificar as suas escolhas editoriais perante os orgãos decisores da Leya. Ou não? Penso que estivemos em sitios onde ouvimos as mesmas conversas pelos mesmos intervenientes, pelo que sabes assim ser. Há aqui uma diferença entre tu decidires o que publicas e um outro editor ter de justificar o que publica internamente dentro da sua organização. É diferente, aliás porque assim tem de ser devido às dimensões e diferenças organizativas naturais de ambas as empresas, ou não?Já do ponto de vista dos leitores e livreiros, deixa-me dizer-te que pena haver tanta Leya e tanta Fnac. A oferta, se bem que mais vistosa, tem-se revelado cada vez mais deficiente. Não só em relação ao tempo de vida das edições, como à existência dos fundos editoriais. E o resto do paíis, que não os grandes centros urbanos, que o diga. Muito mais poderia ser dito neste aspecto, mas compreendo e concordo que do ponto de vista das pequenas editoras como a vossa seja bom haver espaços como a Fnac. Acho isso e já o disse, uma posição saudável da vossa parte. Agora para o público em geral e para os outros intervenientes do negócio do livro, isso já é outra loiça.Parece que desta é que é.

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