A Ficção em Portugal Vende? – Respostas Virtuais e Últimas Considerações

Consta que o meu post anterior foi uma resposta. Não foi, assim como pode ser lido no fim do próprio e como pode ser depreendido do volume de questões suscitadas e das preocupações que me são constantes. Mas foi uma reacção a elementos do texto de João Seixas e do texto de Safaa Dib como aliás escrevi em lugar próprio no meu texto.

João Seixas comete na sua resposta reactiva e algo apressada alguns enganos e erradas interpretações sobre o que escrevi, sobre as quais são tecidas certas considerações. Seja. Optando pela discussão epistolar em vez do discurso directo, o João responde ao meu post anterior em termos nem sempre elogiosos mas legítimos em boas polémicas ou conversas epistolares. Seixas, com quem amiúde concordo e discordo, da minha parte sempre de forma salutar, terá opiniões relevantes e outras não tanto. Tentarei dar resposta em igual tom e com fair play. Na maior parte, gosto de deixar aos leitores a tarefa da necessária exégese, pois não tenho o hábito de considerá-los como entidades acéfalas, analfabetas, iletradas ou sequer iletradas funcionalmente (um dos temas que ele no seu post de resposta, não sei porquê, confunde e mistifica, esquecendo-se do que disse e não tendo lido o que eu escrevi, como o leitor poderá verificar), por outro lado, acho o tema tão importante que algumas coisas terão ainda de ser ditas, antes de fechar o tema.

Notei com curiosidade os pontos onde Seixas refere opiniões que não emiti, explicações não dadas e outras formas epistolares de fuga à resposta. O silêncio em relação a variadas das minhas perguntas, é um bom indicador do que o leitor irá pensar acerca desses assuntos. Acabemos a introdução dizendo que ele escreve do ponto de vista do Editor, e eu do ponto de vista do Leitor ou quanto muito, do Observador Exterior.

Primeiro os fait-divers, ou seja, vejamos algumas frases de Seixas onde ele me atribui o inatribuível e me desvia de onde nunca me aproximei:

1- "Fonseca reconhece a realidade essencial que apontei no meu texto: algures entre finais dos anos 80 e meados dos anos 90 do século passado, desvaneceu-se o público leitor"

– Não só não a reconheço, como a ponho em questão; é esse um dos pontos essenciais do meu artigo. Que elaborarei de novo mais abaixo.

2- "as suas duas primeiras conclusões, na medida em que equaciona a abundância de FC no passado com a certeza da possibilidade da sua publicação hoje e afirma que ainda existe hoje o público comprador de outrora (que não nos diz onde está)"

– em lado algum faço inferir da existência de um público no passado a certeza da sua captação neste nosso presente; mas dou a sugerir algo diferente:: que ele existiu e que ainda está por aí e portanto passível de ser re-captado, principalmente se forem aplicadas boas práticas de gestão empresarial e de marketing relacionadas com os conhecimentos existentes no meio do livro E digo onde está esse público: vivinho, se bem que mais velho, pelo que é questão de tentar ir lá buscá-lo, algo muito mais fácil que ganhar público novo, como diz o bom senso. Apesar de no meu artigo apontar como interessantes outros tipos de público, consoante as categorias, como o dos best-sellers, o feminino, os jovens, ou seja os que tradicionalmente comandam o mercado do livro pelo lado da Procura. E se estes não estão expostos à existência de FC no mercado, como podem eles reagir favoravelmente (ou negativamente)? Mais, porque não há estudos de mercado que tipifiquem os consumidores do livro? Já era tempo de começarem a surgir, e só a academia (desinteressada da questão) e as editoras, poderão fazê-lo.

3- "O Nuno equaciona de seguida os Grupos como a LeYa com as cadeias como a FNAC."

– A Questão FNAC é referida acessoriamente, e nos seguintes termos: de comparação e em função da ideia de um economicismo pernicioso prevalecente no mercado. Refiro que as editoras pequenas como a LdA a SdE e outras tantas se queixam da Gailivro-Leya quanto a esse fenómeno, assim como os pequenos livreiros se queixam da FNAC. Mais ainda, dou a entender que é natural que os pequenos editores não se queixem da FNAC. De novo, coisas de bom senso, embora até feito de forma acessória. Comparar realidades não é interdependê-las nem equacioná-las na explicação de qualquer análise externa.

4- " iluminado por um fulgurante pensamento politicamente correcto, o Nuno aborda duas questões importantes – a da influência dos leitores de sexo feminino, e o do cinema de FC – escudando-se numa suposta falta de estudos e números objectivos, ignorando, porventura, que esses números existem lá fora"

– Não fui iluminado apesar das minhas tendências zen-budistas, mas pelo menos este conjunto de tres-leituras, de silêncios cirúrgicos, de mantos atirados em direcções diversas das pretendidas, continuou a cimentar as minhas prévias opiniões. A questão da iliteracia em geral e da iliteracia funcional foram chamadas à colação no post original de Seixas. Não é a primeira que discordamos nalguns desses pontos e não será a última graças a deus e apesar de eu ser ateu que a concordância é a postura dos chatos. Referi no meu artigo que a suposta iliteracia funcional é um conceito que não funciona para explicar nada na questão de fundo da venda da FC em Portugal, como Seixas referia no seu post original, demonstrando eu com a opinião que existe na praça quanto à FC, e que o Seixas conhece, dos letrados funcionais, que possuem um declarado desgosto para com a FC. Se é uma característica comum a ambos os grupos, dificilmente poderá ser chamada à explicação do fenómeno. Resposta a isto? A mudança de direcção e denegação absoluta da afirmação acima, bem como o contexto em que está inserida. Politicamente correcto eu? Por questionar as suas afirmações, por pedir sustentação das suas afirmações? Que pensamento curioso. Mas Seixas é livre de o pensar e nisso acreditar. O facto de existirem números lá fora, terá de ser cuidadosamente escrutinado e avaliado para saber da sua relevância em relação ao nosso país e a nossa realidade editorial. Por exemplo, tendo em conta o tamanho dos mercados em questão, a expressão da FC na Academia em que foram produzidos, etc., o que dificulta logo à partida muitas das análises disponíveis. A genética ajuda aqui mais, assim como as ciências da educação. Onde fui buscar um ou outro elemento, completamente ignorados por Seixas. Durante muito tempo, também eu pensei simplisticamente que “as mulheres gostam mais de fantasia e os homens de FC” Até que me vi constantemente a ser bombardeado com factos que contrariam isto. Por exemplo, toda a minha vida sempre encontrei mulheres mais receptivas à FC que homens, isto entre as pessoas que gostam de boas histórias ou de bons voos imaginativos, não entre os defensores do realismo jornalístico ou de sofrimento. São inúmeras as escritoras lá fora, hoje em dia tantas como os homens. Entre nós, podemos referir que a alfabetização e a licenciatura da população feminina teve demonstravelmente um aumento incomparável com a democracia. Etc. etc. Com o avolumar dos factos, comecei a questionar esse tipo de afirmação. Para chegar à conclusão de que não temos certezas. Mais: a de que, de um certo ponto de vista, não quero ter certeza nesse aspecto. Interessa-me muito mais considerar cada ser humano como capaz de gostar de boa história e de um bom voo especulativo, do que saber se tem pilinha ou passarinha ou se ausa para passar as páginas. Se isto é políticamente correcto? Talvez seja, mas  o problema é de quem o pense por querê-lo ser e não meu.

5- "o subterfúgio de que houve uma transmutação da comunidade de leitores para a comunidade de telespectadores ou consumidores de espectáculos cinematográficos."

– mas onde teria Seixas os olhos ao ler estas coisas? Um mistério digno das profundezas da Quinta da Regaleira, mas não das profundezas da clareza campbeliana que ele galantemente costuma defender.

Ora reproduzindo o que falei no artigo, onde falei de cinema, com o habitual recurso ao bold para melhor compreensão final:

[Após pôr em causa a descrição que Seixas faz no 1º texto dos (des)gostos Femininos quanto a FC]:

(…) De modo que não se poderá afirmar com leveza que o sexo feminino não tenha apetência para a FC. Acreditarei nisso com números fiáveis (por falar nisso, pergunto-me se haverá números para a FC consumida noutras áreas como o cinema, o que daria talvez um indício, se bem que nunca um verdadeiro indicador).

ou seja, num extenso parágrafo de questões pertinentes, Seixas diz que eu digo o que não digo e que sugiro o que não sugiro, para se lançar posteriormente numa exposição altamente dúbia, com recurso a fontes que não vou discutir, a não ser para revelar o que lhe parece ter passado ao lado: apesar de publicados no início deste microsoftiano século, todos os estudos apontados (à excepção de um da década de 90) são do início da década de 80, bem no rescaldo das grandes lutas feministas dos 70, e todos aparentemente ligados à FC televisiva, cujo fenómeno de audiências ignorei para o meu artigo, chamando só à colação o facto (por ele aliás admitido) de que seria interessante ver a sua correspondência em Portugal. Outro facto curioso é ele ignorar voluntariamente o eu ter afirmado que o Público feminino determina ou consome essencialmente best-sellers, o que pode ser transportado para as análises que ele dá em relação às séries televisivas como a do Star Trek. Se ele tivesse aplicado o mesmo raciocínio à literatura, teria reparado que teria de concordar comigo, o que por abstrusa razão não veio a acontecer.

[Falava eu noutro lado a seguirdas editoras e de como escolhem os livros a publicar por cá]:

(…) E se tem de se socorrer de algum indicador, vais aos puramente economicistas (quem não sabe é como quem não vê): números de vendas (especialmente nos EUA e se conjugados com os de Espanha – uma espreitadela às revistas de nuestros hermanos dá-nos um excelente indicador do que por cá acontece, tanto em FC como na Fantasia e no resto), e exposição nos media, nomeadamente no cinema, e com o recente boom de interesse nas séries, na televisão (um fenómenos que está a começar).(…)

Ou seja, digo que o fenómeno da FC no cinema e na TV por vezes releva por cá na decisão sobre o que se publica. Nada mais. Nem “subterfúgios”, nem convoluções impraticáveis, nem rocambolescos saltos conceptuais. Valorizo isso? Nem o fiz no artigo mas posso fazê-lo agora: ainda bem! Antes haver alguns critérios, mesmo que economicistas, que não haver nenhuns. O que questionei foi no sentido de levantar a questão de isso ser bom para a expansão do género escrito. Sempre houve aproveitamento comercial da exposição prolongada do público a títulos por outros meios. E isso até tem a vantagem de quê? De produzir exposição de borla para as editoras, o que é financeiramente desejável, pois claro, e muito bem. Títulos desses puxam as vendas e dão dinheirinho para se publicar outras coisas com menos exposição. Rowlings e Charlaine Harris entre outros não vendem por serem obras primas ou sogras da escrita, vendem porque há publicidade de borla no formato visual. E ainda bem! Que vendam muito para que os editores possam publicar do resto.

Mas, voltando atrás, onde nisto tudo indico eu que há uma passagem do público de um meio para o outro e que isso é aplicável à discussão? Pois, parece que não. Ler de viés tem destes lapsos. Uma coisa é dizer que a análise do público que frequenta o cinema de FC pode dar uma indicação sobre como a sua composição reage a tudo FC, mas até vinquei expressamente o carácter puramente indiciativo desses números. Que nem deveriam ser tomados como indicadores puros ou directos para a questão. Again.

 

Mas deixemos as picuinhices bacocas de lado e vamos ao essencial.

O meu texto de ontem surge na sequência de, mais uma vez, se andar a falar à boca cheia sobre os efeitos perniciosos do economicismo da Leya no nosso mercado, conjugado com outra ideia muito propalada na blogosfera de cariz FC e Fantástico de que a FC não vende. São ideias que volta e meia costumam vir à tona.

Quanto ao primeiro facto, que quanto a mim tem um certo fundo de verdade e oportunidade, não o discuto e até com ele concordei. Mas achei importante suscitar questões que evitassem a diabolização da mesma, visto que como é notório, neste mercado, sejam grandes ou pequenos, não há virgens. Achei importante notar que tudo deve ser perspectivado e apontei de que quadrantes e com que enquadramentos. Em relação à FC, sempre pensei ser engraçado que só tenhamos opiniões das editoras sobre o assunto, nunca da perspectiva dos outros intervenientes.

Seixas, sendo um editor com uma única obra de FC e várias de Slipstream ou de um certo tipo de Fantástico publicadas na sua casa, sabe isto. É natural que como editor ele não sinta a pressão do mercado para que publique FC. Qualquer editor só sentirá pressão nas vendas que fizer,  não nas que não faz, pressões no que vê os seus concorrentes vender e ele não (e os que vendem alguma FC terão relevância para o seu caso específico devido ao facto de a LdA ser uma editora pequena, não lhe dando acesso a voos de grandes tiragens ou vendas) e se há algo que eu informo no artigo e que ele não poderá negar, é que as editoras não apostam em FC pelo que não sabemos se vende ou não. Se calhar seria de inferir que pequenas editoras publicando pouca FC e nem sempre com as melhores escolhas empresariais, não são bons pontos de referência. Um bom ponto a discutir, se houvessem números transpirados cá para fora. Mais, opinei que se calhar as que tem mais meios deveriam efectuar apostas dessas, com boas e sustentadas estratégias para os seus produtos e ver qual a reacção do mercado. E juntei alguns factos, indesmentidos, sobre realidades que ajudam a decisões no sentido de se vir a apostar nesse género que ambos aparentemente amamos.

Infelizmente existem no texto do João algumas opiniões que ele me atribui e que tive de referir. Logo a abrir, a mais notória, pois não reconheço a realidade essencial que ele aponta nas suas opiniões, a de que o público de FC se desvaneceu. Se alguma coisa afirmo é que ele existe e, de acordo com os dados demográficos, terão de ainda andar por aí, visto que não podem ter morrido todos de morte súbita para gáudio das opiniões diletantes.  No fundo, não sabemos porque se deixou de publicar e as razões que ele deu para o facto são mais respeitantes ao momento presente que ao momento desse suposto desvanecimento, a caracterizações sociológicas gerais bastante discutíveis, e assentes em práticas e experiências não determinantes. De resto, no meu artigo ponho é em questão algo diferente, o se também não terão sido as editoras a abandonar o género, mais do que os leitores a fazê-lo, pedindo números para podermos decidir de uma forma ou outra, sob pena da discussão ser quase estéril.

A questão interessa-me, e suspeito que de respostas mais sociais, económicas, políticas e externas ao género, com algumas doses de aleatoriedade, de azar do caraças, exponenciadas pelo facto de Portugal não ser um mercado grande e dos seus intervenientes directos serem tradicionalmente muito poucos. Alguém desaparece ou muda de ramo e lá se vão colecções inteiras, direitos de publicação aos molhos, estratégias completas abandonadas, etc. Nesse sentido iam várias perguntas acessórias que referi e que Seixas placidamente ignorou na sua resposta.

Para tal formulei uma série de perguntas, longe de ser exaustiva. De todas Seixas refere uma quantidade diminuta e dá-lhe a resposta mais incipiente  de todas, sobre Tiragens, sem as conjugar com todas as outras perguntas que agrupei sob o mesmo tópico, sem as quais não faz sentido discorrer. E muitas mais poderia ter feito, sob pena de confundir ainda mais a já de si rodopiante análise de Seixas.

Por exemplo, perguntar que relevância terá tido a Contabilística geral e analítica, com todas as suas crescentes regras, e a aplicação geral das leis, principalmente no pós-74 e com especial ênfase a partir de fins dos anos 80/princípio dos 90 quanto aos direitos de impressão de muitas das obras publicadas em Portugal durante muito tempo.  Se antes havia (sejamos modestos) uma atitude algo laxista em relação ao assunto, que permitia um maior volume de publicações, isso deixou de ser possível nesta idade da regulação e da circulação de informação pelos organismos de fiscalização e controlo.  Mas sobre isto, ninguém fala, como é natural. Isto Seixas nunca alguma vez referiu em qualquer análise, e parece-me um factor importante. Por vezes as perguntas são tão ou mais ilustrativas e indiciadoras do que opiniões-resposta. Quando as questões não parecem claras e distintas, sugere-se sempre a re-leitura das mesmas.

Seixas até dá alguns números que me ajudam, não sobre quantidades publicadas, mas sobre nºs de colecção publicados, um número incipiente como indicador visto que descontextualizado e que pouco mais diz que as editoras em causa deixaram de apostar em tantas obras como antes. Mas a razão pela qual as editoras deixaram de o fazer terá de ser referida pelas próprias, visto que a ausência de números fiáveis (já lá vamos) não é de agora e antigamente muito mais sentida. No entanto, mesmo opiniões informadas pelas editoras referidas de então, seriam uma boa adição a este tema. Mas estranho que ele refira números relacionados com o Fantástico e não os da FC: eu tive o cuidado de me referir exclusivamente a esta. (A este marginal propósito, apesar de eu ser de esquerda, Todorov não me agrada muito, e não serei o único). Seja como for. é sempre fácil levantar teorias sobre pouca certeza. Eu prefiro ir pelo lado contrário e nascente da questão, a de perguntar os fundamentos, antes de me pronunciar com certezas de carácter absoluto.

Os números escassos que temos. Nunca tendo querido acusar ninguém, o certo é que eles não existem de forma decentemente reveladora. E não Seixas, não bastam relatórios de contas feitos por vezes à medida para os autores e nunca fiscalizados por qualquer entidade. Sempre foi possível a um editor dizer a um escritor: “desculpa lá, não te podemos pagar porque não vendemos nada.” Ou “vendemos só estes, foram poucochinhos, e não te podemos pagar”. Ou “pagamos-te mas é pouco”.  Independentemente dos números reais de vendas. Seixas sabe disto, eu sei disto, todos sabemos disto. Assim como sabe perfeitamente que nem sempre existem contratos em todas as relações, ou que esses contratos sejam claros defensores dos direitos de todas as partes envolvidas nessas relações. Sempre assim foi e será durante muito tempo. Ninguém irá aos armazéns das editoras contar caixas e volumes, procurar discrepâncias de números, ou sequer agir em função disso; para além das questões aqui nada acessórias, como a de que se sabe que contratualmente, as editoras podem ser obrigadas a pagamentos de direitos de autor adicionais a partir de certo volume de vendas, o que encarece extraordinariamente os custos que terão de suportar, o que gera uma pressão para que o editor, se possível ou se lhe for necessário financeiramente ou se tiver simplesmente maus fígados, decida informar erradamente o escritor sobre o verdadeiro número de vendas das suas obras. E de repente até vemos situações em que fica notória a razão para poderem ser referidos os números de poucas centenas que muitas vezes as editoras lançam insubstanciados para o ar das discussões. Não é preciso acusar ninguém, para saber que estas práticas existem em todas os quadrantes do nosso mercado. Perguntar por números, exigir que eles sejam verificáveis e fiscalizáveis, é extremamente importante. Para termos melhores editores, melhores escritores, melhores obras e vendas. 

Mais: quando Seixas refere que o escritor pode sindicar a editora, tem razão, mas quem o faz? Quem arrisca a não ser mais publicado por uma editora? Que vantagens trará semelhante acto na carreira de um escritor? E no nosso pequeno mercado, onde todas as editoras se entreolham, como reagirão elas perante os descontentes? Que nos diz o bom senso? É a velha questão da posição de poder dentro das relações jurídicas, tema a que o João, como advogado que é saberá reconhecer: não basta ter direitos, é preciso ter condições para os exercer. Vão começando a haver, mas ainda a procissão vai no adro. Será esta uma questão acessória e nada importante? O leitor pergunte-se se é. Eu penso que não.

Não nos enganemos. Há muita editora decente no mercado, mas as más práticas ou as simplesmente duvidosas ainda persistem, e tem levado muitos anos a expurgar-se do mercado, mais que não seja, porque somos um povo muito criativo. E afectam editores grandes e pequenos, tradicionais ou modernos, experientes ou não. Há de tudo como no supermercado, nos filmes e sim, nos próprios livros.

Mas vamos às opções de marketing editorial. João Seixas individualiza certas experiências de Livros de Bolso de forma atabalhoada. Ora afirma que passaram de bolso para “estante” ora o inverso, mas sempre para concluir que o formato de bolso não vende, mesmo quando afirma que venderam. A minha pergunta continua igual: onde estão os números? É questão assente para quem? A Livros de Areia, por exemplo, terá alguma experiência nesse aspecto (se bem que não de uma forma pura, visto os seus livros em formato de bolso terem algumas características que os afastam desta categoria), mas seria interessante termos números concretos de vendas, em que espaços, em que condições, etc. e que ele no-los fornecesse para discussão. Começando na especificação do exemplo que usou, indo além das tiragens, com exemplos concrectos, equacionando preços das matérias-primas, das gráficas, do material promocional, dos direitos adquiridos, dos direitos contratados com os autores, do esquema de distribuição usado, e de novo etc.. Claro que duvido que Seixas os produza, ou sequer que o possa fazer (embora eu gostasse: a partir daí poderiamos começar a falar sobre a boa gestão que é feita e questioná-la e valorá-la quando à fomentação do género FC em especial). Porque ainda vivemos num mercado onde a publicidade dos actos administrativos de cariz privado (privado no sentido de empresarial ou comercial) não é uma boa maneira do gato se alimentar de doces tradicionais ou de se manter longe das águas frias ou profundas. 

Pode até ser certo que houve menos apetência do mercado pelos livros de bolso, como Seixas indica, e até acho que sim. Mas isso tem de ser mitigado e perspectivado com perguntas sérias (por muito que ele não goste de ouvir perguntas e me acuse de produzir nuvens). Ora de vez em quando chove e temos de ver onde isso acontece, sob pena de nos constiparmos. Não haveria uma saturação do mercado em relação a esse produto? E uma deficiência de edições em formatos e qualidades físicas decentes? Onde irá Seixas buscar respostas para isto? Eu por mim estou interessado em ouvi-las. Para só depois começar a formular teorias explicativas.

Mas é verdade que estes são fenómenos de modas, tanto em leitores como em editores. Há poucos anos, andámos numa chuva de fontes e espaçamentos enormes, próprias para leituras à distância de um metro. De vez em quando é o contrário, e nem com lupas. Experiências, todas elas válidas, mas que muitas vezes terão mais a ver com o custo do papel e poupança na impressão do que com uma melhor e optimizada apresentação do livro ao público para ter os melhores resultados. Mas o que interessa, e que tive o cuidado de apontar no meu artigo, e perante o qual o João respondeu com o seu silêncio, é o que aconteceu com esse saber acumulado? Como se reflecte ele nas edições do presente, principalmente se vemos as editoras a repetirem constantemente os mesmo actos, as mesmas escolhas, sem ligar às experiências do passado, num eterno redescobrir da roda sobre o que funciona e não funciona? Uma capa que tenha uma mulher vende mais que a que não tem? Ou uma casa? Ou um vampiro? ou um avião? E se for rosa, vende mais? E a quem? Este tipo de saber, normalmente recolhido nos vendedores e nos livreiros, conjugados com números concretos de vendas e colocações, proporcionam uma gestão óptima da venda do produto livro, e são comprovadamente de bom resultado, independentemente do género, autor ou qualidade dos livros em causa. Por outro lado aínda, mais facilmente se importam capas do estrangeiro, que funcionam em Espanha ou França ou EUA, do que se usam capas originais. Ou se copiam com aplicabilidade directa cá no burgo, por vezes às três pancadas. Como referi no meu artigo, é só ver a imprensa literária estrangeira para reconhecer as capas e os títulos.  O livro é um produto, apesar de ter igualmente uma dimensão social tremenda. Mas é pouco respeitado enquanto tal.

Mas a conversa vai longa, e as questões que queria ter colocado, já o fiz. Continuarei por muito e muito tempo à espera das respostas, a ver as danças em torno da sua formulação, os silêncios cirúrgicos, etc.

Concluindo e resumindo:

Primeiro que tudo, e em regime de Full Disclosure, como se diz lá por fora nas américas, o que digo é do ponto de vista de quem está fora do jogo editorial. Não pertenço ou pertenci a nenhuma editora e os gastos ou ganhos que alguma me tenha dado até hoje são diminutos e não expressivos. Não tenho nenhum CV à espera de resposta, embora tenha uma peça de ficção pendurada numa das editoras referidas nesta conversa (pelo que o bom senso ditaria que eu não escrevesse sobre estes temas, mas bom senso nem sempre o tenho). O que escrevo, opino e pergunto é por exclusivo amor à literatura e em específico à literatura de género, com ênfase na área da Ficção Científica que observo à mais de 20 anos e no qual intervenho directamente vai para três. Penso ser uma área onde o público geral, o público leitor, pode ganhar muito. E o mundo empresarial do livro também. O meu entusiasmo, se o é, não tem agendas pessoais, profissionais, sociais, não pretende amarrotar ninguém, nenhuma instituição, nenhum saber ou posto instituído ou auto-atribuído. Claro que se eu escrevo alguma FC e se esta se passar a vender, tarde ou cedo isso poderá ter bons reflexos para mim, mas o leitor destas linhas diga se isto não é legitimo e aceitável.

Dito isto, afirmei antes e afirmo-o agora: Não se sabe se a FC vende ou não em Portugal. Não há esforços constantes e concertados nesse sentido. Enquanto não houver uma aposta séria, estudada, com saber acumulado no barco, com dinheiro e vontade suficientes para aguentar as flutuações inerentes à exploração intensiva de um tipo de mercado que ainda inexplorado, não saberemos se é ou não possível vender e vender bem FC. Houve algumas boas experiências que ainda podem ser capitalizadas, mas com a passagem do tempo vai-se tornando cada vez mais difícil. O que há são esforços pontuais, com pouco dinheiro e menos vontade. Em vernáculo, pode-se dizer que as editoras terão uma cagunfa desgraçada de perder dinheiro, mas se é verdade que quem tem cu tem medo, também o é que quem não arrisca não petisca. O que pus em causa foi a análise que diz que gato escaldado de água fria tem medo, porque na realidade ninguém sabe, e que a culpa é de toda a gente menos das editoras. O que apontei é que podemos e devemos fazer as perguntas pertinentes. Nem que seja para as editoras pensarem um pouco mais no que andam a fazer, pelo menos mais do que a andarem a ocupar-se a culpar o público leitor por falhas que muitas vezes são da sua única e exclusiva responsabilidade. É que a culpa não pode morrer solteira. Muito menos nas costas dos leitores e da sociedade ou do sistema. Todos partilham um pouco da coisa.

Por outro, chamei a atenção para que as clivagens entre pequenas e grandes editoras só podem ser entendidas verdadeiramente de fora, nunca recorrendo somente às queixas dos próprios intervenientes. A diabolização da Leya é um facto que tem crescido desde antes dela existir legalmente, o que não impede que em muitos aspectos ela seja o próprio Diabo à solta. Mas digo e repito, de fora, a análise não é assim tão simples, e as pequenas editoras são por vezes diabinhos à solta, pelo que não podemos tomar tudo pelo seu valor facial. O economicismo desbragado, que se habituou agora a designar de neoliberal, sempre existiu. Periodicamente vai erguendo a cabeça sobre o mar do comércio, tendo mais ou menos influência. Não é como diz Seixas, um fenómeno dos últimos 20 anos. Já no séc. XVIII se queixavam que os livreiros (quem imprimia e publicava as obras que não tinham origem na casa real) eram uns interesseiros, que publicavam mal, que não pagavam, que traduziam mal e patati-patatá, por aí fora. A especificidade dos tempos de hoje, produto dos últimos 50 anos, é a da mundialização da informação, do acesso fácil a diferentes mercados e da incrível massificação da oferta. De repente está tudo aí à mão, e é quem tem dinheiro ou quem se especializa à cunha que sobrevive. Haverá outro período de maior bonança ética e moral nos negócios, que estas coisas são cíclicas e não suportam grandes extremismos. É o que é. Mas temos de manter a perspectiva. Ver em que qualidade se fala do fenómeno e pôr todo o grão de sal na acuidade das opiniões expressas. Porque um extremar demasiado, o diabolizar absolutamente, será de certeza contraproducente. Pressão sim, pressão demasiada não. E isto aplicado à venda da FC, o que gerou o meu artigo, é interessante, visto que tanto a Leya como as pequenas editoras estão a disputar um mesmo espaço pelo qual dizem não ter interesse porque nele não se vende! Apontei que a Leya faz isto através de uma editora do seu universo que tem de lhe responder administrativamente, que as suas escolhas, feitas como pequena editora, são legitimadas pela administração central, com as suas estratégias próprias do mercado, com certeza nem sempre coincidentes. É um modelo de organização misto que não é igual, mas em parte semelhante ao das pequenas editoras. Será suficiente razão para se diabolizar a forma do seu output? Tenho as minhas dúvidas. Não é sintomático do melhor para o futuro da publicação de FC entre nós, mas também não é nenhum bicho-papão. Mas uma coisa é certa: tudo o que contribua para a absoluta transparência dos actos dos vários intervenientes no mercado só poderá ser bom para os leitores e para a cultura em geral. Um estado de coisas que não existe, não interessa a ninguém que exista, nem existirá durante muito tempo. Mais que não seja, porque se pensa que será mau para todos. Ora do ponto de vista dos leitores, aquele que interessa deste lado da análise, isto não é bom.

E é tudo. Se aparecerem números relevantes e completos, opiniões com experiência das épocas históricas em causa, eventualmente formularei mais perguntas. É bom fazê-las. Levam-nos sempre mais longe do que elaborar castelos de areia.

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3 responses to “A Ficção em Portugal Vende? – Respostas Virtuais e Últimas Considerações

  1. Olá Nuno,Vou ser sincera. Não gostei muito da perspectiva redutora que fizeste do meu post sobre a aquisição da Bertrand. Subentendo por este teu post, assim como o anterior, de que interpretas o meu post como sendo uma queixa da Saída de Emergência, enquanto "pequena editora", que está a bater na "grande editora", a Leya. Dizes que concordas até certo ponto mas é preciso não diabolizar, porque as pequenas editoras também são pequenos diabinhos. Antes de mais, tem muito cuidado quando confundes as minhas opiniões pessoais com as da editora Saída de Emergência. Eu trabalho na editora, mas no meu blogue é a Safaa Dib que fala, e não a SdE. Partilho no meu blogue parte da minha experiência profissional, mas as minhas opiniões não expressam a opinião do grupo SdE. Se leres bem a totalidade do meu texto, verás que não se trata de mero "whining" editorial do mais fraco contra o mais forte., nem se trata de uma perspectiva extremista. Aponta-me um facto do meu post em que possas dizer que exagerei grandemente ou que fui falsa na argumentação. Expus factos, baseados na minha experiência, de como a Leya afectou mais negativamente do que positivamente o mercado. Mas não me viste a queixar nesse mesmo post sobre a actuação do grupo da Porto Editora, pelo contrário, reafirmo os sinais positivos que vejo na aquisição da Bertrand pela Porto Editora. Assim como não me viste a bater em lado algum no meu texto no 3º grupo editorial que surgiu recentemente, a Babel. Porque assumi um discurso mais crítico em relação à Leya? Porque qualquer editor ou leitor atento consegue ver que há um período antes da Leya e outro após a Leya. E o período pós é muito mais problemático e preocupante. Vou dar-te um exemplo muito simples. A Leya foi o primeiro grupo editorial que se recusou a disponibilizar o seu fundo de catalogo na Feira do Livro de Lisboa. O leitor que procura raridades ou antiguidades não pode contar mais que as próprias editoras as forneçam, porque o que está exposto em todo o lado são apenas as novidades, os best-sellers. O que aconteceu ao restante catálogo? Recentemente soube-se que parte dele andava a ser destruído. Então porque não o disponibilizaram nos últimos anos na Feira do Livro sequer? Vais argumentar comigo de que as "pequenas editoras", os pequenos diabinhos, também fazem a mesma coisa? Pois isso é precisamente um dos focos do meu post, o facto de várias editoras começarem a adoptar as estratégias da Leya para sobreviver no mercado. Queremos todos obter lucros? Claro. Mas uma coisa é competitividade no mercado, outra é introduzir na área dos livros o tal "economicismo desbragado" que nunca tinha existido a este nível antes em Portugal. De qualquer modo, não aceito que andes a referir directamente o meu post como uma tentativa de diabolização da Leya. Não afirmo as coisas que afirmei de forma leviana, pois não há um facto que tenha expresso sobre a Leya que não tenha sido confirmado por pessoas que se envolveram com esse grupo editorial. Expus o panorama editorial que de simples não tem nada, mas certamente que não são "intervenientes de fora" que saberão a complexidade das questões envolvidas. Quanto à venda de livros de FC, não quero envolver-me nesse assunto, até porque o meu post nem sequer abordou essa temática. Posso dizer, no entanto, que não é preciso relatórios de vendas para concluir que a ficção científica vende muito mal, e quem te diz isto é uma pessoa que tem acesso aos tais números mágicos. No entanto, se calhar vais dizer que, como trabalho para uma editora, existe uma cabala por trás destes números e temos que olhar para eles com uma pitada de sal. Tu é que sabes se queres confiar ou não nessa informação. Mas digo-te uma certeza: a maioria dos editores actuais que publicam FC, e aqui falo da verdadeira FC, não de livros com um ou outro elemento futurista científico, sabem perfeitamente que a FC vende mal, mas publicam-na por paixão e teimosia e porque adoram o género. Nisto sei que é verdade no caso de Luís Corte Real e Pedro Reisinho.E já agora, não percebo esse teu desejo de nos dar a ver a Gailivro como uma pequena editora QUASE igual às outras. Referes-te à SdE como "pequena editora" mas ela é pequena em relação a uma grande editora que é a Gailivro-Leya. Mas ao mesmo tempo, referes que a Gailivro é quase como todas as outras pequenas editoras, mas tem a infelicidade de ter uma administração em cima que não lhe permite ser totalmente autónoma e a quem tem que prestar contas. Nuno, a Gailivro tornou-se Leya no momento em que a Leya estabeleceu objectivos de venda anuais a cada um dos seus editores. Editores esses que têm recursos disponíveis que vão bem para além das capacidades de "pequenas editoras" e é por isso que colocar a Gailivro e os outros pequenos diabinhos em pé de igualdade é uma falácia e, atrevo-me a dizer, um disparate. Pequenas editoras são as que operam quase ao nível de small-press e que mal se podem dar ao luxo de andar a pagar salários. Safaa Dib

  2. Olá Safaa.A leitura incorrecta parece de facto um problema social grave. Talvez deva dar razão ao João quando ele refere os problemas na área. Porque infelizmente desvia o diálogo dos aspectos essenciais que pretendi focar, tão importantes, para não falar nos mal-entendidos e no que isso pode gerar neste país onde toda a gente é ultra-sensível mas não ao ponto de ler com atenção.Começando com as minhas palavras, onde a ti e ao teu texto, fiz referência:-No post original do meu artigo, com irritante (para mim é, mas torna-se útil) uso do bold:"este artigo vem no seguimento de alguns posts importantes que se viram na net nestes últimos dias, se bem que o seu conteúdo já me ande a bailar no cérebro há bastante tempo. Notoriamente no Blade Runner de João Seixas (da Livros de Areia), mas também no Stranger in a Strange Land de Safaa Dib (Saída de Emergência). Ambos dão opiniões e suscitam questões que ora convergem ora divergem das que eu expús neste texto, sendo de consulta mais do que aconselhada,"- No post seguinte e final, ou seja, neste onde comentamos, e já antevendo as constantes des-conversas externas:"Consta que o meu post anterior foi uma resposta. Não foi, assim como pode ser lido no fim do próprio e como pode ser depreendido do volume de questões suscitadas e das preocupações que me são constantes. Mas foi uma reacção a elementos do texto de João Seixas e do texto de Safaa Dib como aliás escrevi em lugar próprio no meu texto." Onde digo eu que afirmas seja o que for em relação ao que escrevo ou aos temas que escrevo? Lado nenhum, zero. Nem o pretendi.Em bom português podemos entender-nos."Vem no seguimento" implica qualquer tipo de resposta directa? de reacção directa aos conteúdos do teu post, nunca em lado algum por mim referidos? Alguma vez falo do negócio da Porto Editora, da Bertrand, e do negócio sobre o qual escreveste?Não.E ainda me dei ao trabalho, por saber como as coisas são no nosso país e meio, de preemptivamente despoletar a situação afirmando-o preto no branco (ok, branco no azul) logo no início deste post onde comentas. Dizendo que "foi uma reacção a elementos do [também do teu] texto (e nota que a referência a este vem sempre em segundo lugar, o que não é por acaso, ou seja indicando que fui buscar mais elementos ao texto do João que ao teu.Obviamente, caiu em saco roto. Mais facilmente vemos o que queremos, do que vemos o que lá está.A questão que me poderias ter perguntado, antes de te sentir desgradada com o que quer que fosse, talvez fosse "que elememtos foram esses" que suscitaram o meu artigo. Teria sido muito pertinente e evitado muito.Respondo com agrado e sem qualquer problema: primeiro, e em maior parte, o economicismo (não nascente) mas hoje cada vez mais prevalecente no mercado dos livros (algo que tem sido uma preocupação constante e muito pertinente em muito do que tens escrito relativamente ao meio dos livros em geral e não só referindo a Leya, e com que em esmagadora maioria concordo – como aliás afirmo repetidas vezes em ambos os meus textos!); segundo e em bem menor parte (visto que o tema do meu artigo é a venda de FC e o papel que as editoras terão ou não nesse fenómeno entre nós), o falar-se inevitavelmente da Leya nestas questões (não és a única a fazê-lo; nem pela primeira vez, como qualquer pessoa que leia este teu comentário e as tuas opiniões o sabe; o fenómeno é geral na blogosfera e na net em geral, como qualquer pessoa vê todos os dias (o elemento que mais me interessava! visto que a ubiquidade do falar da Leya directa ou indirectamente nestas questões leva a um fenómeno de diabolização fácil, algo que não me agrada por uma questão de princípio e que até pensei que a ti também – recordo que quando uma vez te perguntei num comentário sobre se não seria útil haver uma listagem pública dos esquemas fraudulentos entre pseudo-editoras que predam novos autores, me respondeste, e com grande dose de razão, que não concordavas com listas negras! haverá diabolizações e diabolizações? não me parece que seja essa a tua postura, mas tu o dirás; mais, o fenómeno de referir necessariamente a Leya nestas questões de economicismo do mercado, não se reduz a ti; não és a única a falar da Leya – e nem interessa para aqui os termos em que o fazes, se favoráveis ou não, visto que nunca pretendi valorar fosse o que fosse do que dizes ou alguma vez disseste – mas o certo, mais uma e final vez, é que neste mundo virtual muita gente o faz com verdadeiro afinco – pecado de que somos todos culpados, inclusivamente eu; o problema é que se tem vindo a verificar a situação, e como eu repetidas vezes mencionei nos meus textos, temos de ter cuidado com isso e perspectivar a questão correctamente, temperar ânimos, etc.; antes que isto descambe em verdadeiros actos de metafórica queima em hasta pública)Pelo que não posso ser culpado do que acusas e referes.Porquê então o desagrado? Incompreensível.E digo isto ainda só tendo lido o primeiro parágrafo do teu comentário!Um abraço,Nuno

  3. (continuação)Leio agora o teu segundo parágrafo e que vejo? Concordo com 99% do que escreves! Restando o 1%, que é, inevitavelmente e de novo, uma leitura errada do que afirmei:Dizes "Vais argumentar comigo de que as "pequenas editoras", os pequenos diabinhos, também fazem a mesma coisa?" Penso que eu subentender nisto, assim como no tom geral do teu comentário, que pensas que eu faço essa identificação entre pequenas editoras e diabinhos à solta, não será uma interpretação abusiva.E que digo eu nos meus textos?"achei importante suscitar questões que evitassem a diabolização da mesma, visto que como é notório, neste mercado, sejam grandes ou pequenos, não há virgens. Achei importante notar que tudo deve ser perspectivado e apontei de que quadrantes e com que enquadramentos.""Há muita editora decente no mercado, mas as más práticas ou as simplesmente duvidosas ainda persistem, e tem levado muitos anos a expurgar-se do mercado, mais que não seja, porque somos um povo muito criativo. E afectam editores grandes e pequenos, tradicionais ou modernos, experientes ou não. Há de tudo como no supermercado, nos filmes e sim, nos próprios livros."e a finalizar de forma arrasadora:"Por outro, chamei a atenção para que as clivagens entre pequenas e grandes editoras só podem ser entendidas verdadeiramente de fora, nunca recorrendo somente às queixas dos próprios intervenientes. A diabolização da Leya é um facto que tem crescido desde antes dela existir legalmente, o que não impede que em muitos aspectos ela seja o próprio Diabo à solta. Mas digo e repito, de fora, a análise não é assim tão simples, e as pequenas editoras são por vezes diabinhos à solta, pelo que não podemos tomar tudo pelo seu valor facial. O economicismo desbragado, que se habituou agora a designar de neoliberal, sempre existiu."Como não acredito que estejas de má fé nas tuas palavras (recuso-me a tal por todas as razões e mais algumas), só posso depreender que leste mal e mesmo muito mal o que escrevi.O que é dá uma terrivel pena, pois o assunto de que falo e os termos em que o fiz mercecia melhores intervenções. E de preferência com as tão necessárias respostas às perguntas que fiz. O que origina agora a leitura do terceiro parágrafo do teu comentário:"Quanto à venda de livros de FC, não quero envolver-me nesse assunto, até porque o meu post nem sequer abordou essa temática."Mas tendo a oportunidade de contribuir, finalmente, o que dizes?"Posso dizer, no entanto, que não é preciso relatórios de vendas para concluir que a ficção científica vende muito mal, e quem te diz isto é uma pessoa que tem acesso aos tais números mágicos."Não são precisos relatórios de vendas? Acho curioso. O que é então necessário? Não serão eles importantes? Para qualquer empresa de qualquer área do planeta Terra? Ok. Costumo respeitar esmagadoramente as tuas opiniões, mas desta vez, vou-me reservar o direito de discordar.A referência a números mágicos é engraçada, apesar que eu sempre pedi os realistas, baseados em dados publicos, demonstráveis e verificáveis. É pedir muito?E salto, com grande desgosto pela pouca confiança intelectual que me conferes pelo "No entanto, se calhar vais dizer que como trabalho para uma editora, existe uma cabala por trás destes números e temos que olhar para eles com uma pitada de sal." Nem a vou comentar.Mas agradeço afirmares aquilo que eu e já toda a gente sabe, "Mas digo-te uma certeza: a maioria dos editores actuais que publicam FC, e aqui falo da verdadeira FC, não de livros com um ou outro elemento futurista científico (…) mas publicam-na por paixão e teimosia e porque adoram o género. Nisto sei que é verdade no caso de Luís Corte Real e Pedro Reisinho"; e quanto ao que omiti entre parentesis, faço-o para chamar-te a atenção de que é precisamente o que nele está, acima verificável, isso que eu peço nos meus artigos que mo demonstrem. A mim e a toda a gente. Porque nós, não editores, não sabemos, nem percebemos porquê. E continuamos sem saber. E há indícios que a afirmação não é assim tão linear ou simples de caracterizar. Afinal o objectivo de todas as minhas palavras.Finalmente, e quanto ao último parágrafo, hás-de notar que falo na Gailivro-Leya em termos de ter um modelo de organização inevitavel e necessariamente diferente do de qualquer pequena editora (mmm… é mentira?), mas para referir em especial o processo de decisão sobre as obras de FC publlicadas por todas as editoras. Mas já nem vou justificar isto com palavras dos meus textos pois tenho os dedos cansados e os leitores também já estarão fartos desta questão toda.Quanto a "E já agora, não percebo esse teu desejo de nos dar a ver a Gailivro como uma pequena editora QUASE igual às outras." e como já o sabes PERFEITAMENTE. o meu desejo em que sentido for seja para que editora for, é-me absolutamente indiferente. Gosto das duas, concordo e discordo de actos de gestão do livro em relação às duas, como o faço e toda a gente faz em relação a TODAS as editoras e Empresas do nosso mercado e do dos outros. Tenho feito tudo, sempre, para ajudar toda a gente, individual ou colectiva, de que marca e modelo for, a fomentar a FC cá pelo burgo. Não acedi até ao convite da SdE para editar a Bang!? Não acedo ao Barreiros para apresentar o último livro dele na Gailivro? Não promovo continuamente que se escreva mais FC? Não vou a eventos de livros que promovem a leitura? Não defendo o género da FC e mais o do Fantástico? Não falo e critico obras de todos os autores, chancelas e editoras no género? (e num ponto de curiosa postura ética que nunca foi comentado, enquanto fui editor de conteúdos da Bang! para a SdE não suspendi opiniões e críticas literárias a quem quer que fosse? Não foi público eu ter vestido a camisola da Revista Bang!, – e até certo ponto da SdE – apesar das condições não serem as de um mundo ideal? Não o terei eu feito por puro amor ao género? ) Etc.Mais uma vez, passo ao lado de insinuações que me vou recusar a tomar como feitas, apesar de deveres ter cuidado pois é isso que qualquer leitor ocasional das tuas palavras poderá pensar, pois se eu respeito a tua personalidade pública nesse sentido (e nem conheço outra), penso que tenho o direito de exigir cuidado também com a minha reputação. É que há que pôr as coisas em pratos limpos. Acredito na ingenuidade dessa e das outras afirmações, mas a honra das pessoas deve ser tratada com cuidado e carinho, e ainda mais quando as conhecemos pessoalmente como é o nosso caso, se bem que de nenhum modo de forma íntima.Desculpa se o tom da minha resposta nem sempre foi brando. Não gosto de aparecer como truculento, visto que não o sou. Mas a juntar a alguns padecimentos particulares, de saúde e não só, de cansaço geral e de alguma insatisfação por não ser correctamente compreendido por quem me habituei a respeitar, o certo é que "só não se sente quem não é filho de boa gente,"Bom. Tenho muita pena que esta questão importante, a de saber se é verdade que a FC não vende e das razões pelas quais é suposto assim ser, seja constantemente escamoteada por desatenções.Porque aquilo que todos queremos é compreender as razões e agir sobre elas. Ou não? Não é esse o objectivo de todos nós? O de conseguir dar ao público um manancial de boa e interesante forma literária?Como conseguir fazê-lo sem sabermos o que foi e o que é a realidade do mercado?Tenho muita pena dos incómodos e dos desagrados, todos a leste do que escrevi. Mas não posso obrigar a ler o que escrevi e não ao que pensam que escrevi. Não posso, nem para tal tenho gosto ou apetência. De qualquer modo, "Amigos como d\’antes no Quartel d\’Abrantes", como diz o povo e muito bem.A mim o que me interessa, antes, agora e sempre, é fomentar o gosto e a publicação pela leitura em geral e pela da FC em particular. Fulanizações ou tres-leituras não me interessam, pelo que por mim dou o caso encerrado.E que todos publliquem mais FC, que é o que faz falta.

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