Não é natural

Eu, contente, bronzeado, sentado no café a ler. Chega uma senhora, baixinha, esbranquiçada, 50 e tal anos. Puxa a cadeira da mesa colada à minha e pergunta-me se me importo que se sente. Digo que não com a cabeça. Ela senta-se e diz para o senhor que vem com ela para se sentar. O senhor tem cerca de 70 e tal anos, pouco cabelo, ainda mais branco e com um ar combalido. Continuo a ler e o senhor senta-se. Estamos todos satisfatoriamente sentados. Ou não.

Entra a pontinha surreal com pézinhos de lã.

A cadeira metálica vazia à minha frente faz barulho sozinha. Ergo os lúzios e vejo o rosto esticado da senhora.
– Importa-se que ponha aqui as minhas coisas?
Faço-lhe o gesto com a mão que apropriadamente convém o significado de “Faça favor” ou “Esteja à vontade”.
O rosto espanta-se e pergunta-me num longo jacto se eu não posso falar, se não entendo português, se eu não sou “daqui”.

Entra a pontinha de irritação pela porta grande.

Ergo o meu rosto, largando a desinteressante “flame war” que estivera a ler na tablet durante os últimos dez minutos, e digo.
– Falo perfeitamente. Fiz-lhe o gesto de que estava à vontade para pôr as suas coisas na cadeira. E «se não sou “daqui”» de onde?
– Ah… pois desculpe. É que vi-lhe o livro, sabe?

Tranquilo e momentâneamente abandonado, está sobre a mesa um calhamaço em inglês com o título “The Passage”. Bem ao lado da chávena de café vazia e do copo de água cheio. Pontos para a senhora pelo facto de ter lido as letras, invertidas numa capa que cromaticamente deveria ajudar ao feito, semi-ocultas pela parafernália de restauração em consumo.

Entra o senhor, devidamente conciliador. Apercebo-me que o seu pouco cabelo de pontas amareladas me invoca os efeitos de um antigo champô.

– É que o senhor tem um ar assim… estrangeiro.
Diz-me isto com um gesto vago para o meu braço nú, peludito e queimado do sol.

– Estamos em Portugal. O normal e natural é alguém aqui ser português.
Nervosa e atabalhoadamente, a senhora diz um sumido “desculpe, obrigado então” e apressa-se a colocar os seus inúmeros sacos e mala no assento à minha frente.

Depois disso, ficámos todos satisfatoriamente sentados. Leitura atenta do meu lado, conversa meio nervosa do outro, tudo civilizado e educado. Embora eu tivesse de ter o cuidado de esperar pelo derrube do meu copo de água, que tremia de cada vez que a senhora mexia nas suas coisas, na “minha” cadeira. 

Um homem não pode ir à praia uns míseros dias que é logo tratado como se fosse desse mundo estranho do lá fora. Ou pior, desse mundo estranho e colorido cá dentro que parece sempre ser de fora para certa gente.

Quando, algum tempo após os dois, me vim embora, deixei o copo de água cheio. Por alguma razão não me pareceu certo beber uma gota que fosse.

 

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One response to “Não é natural

  1. Nada neste mundo é natural mas tudo se torna normal quando a anormalidade faz parte da naturalidade de quem pratica acto estranho.
    lol.kdx

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