20130215 – Crónica de um teso em tempo de crise

E assim temos que o Governo vem novamente meter a pata na poça, ou seja em todos nós, com a história da factura ser agora obrigatória em todas as transacções e de podermos ser presos se não as pedirmos ou não as tivermos durante quatro anos.

Nós na poça, obrigado, tudo bem. Sempre podemos protestar no Facebook ou ir a uma manifestação da CGTP (aposto que há mais do que uma já organizada) ou ver vídeos de malta a protestar cantando. Andámos tantos anos a ouvir os novos intelectuais de direita a dizer que ser engagé era démodé, que deixámos de ouvir os comprometidos quase por completo e hoje em dia ninguém se engaja de ânimo leve.

A provar que esta é uma era não comprometida, caiu um meteorito na Rússia. Digo mais, esta não é uma era comprometida seja com o que for, e muito menos em relação com o que quer que seja. Podem cair raios e coriscos, calhaus e o que for, que a malta não se compromete.

It’s complicated.

Antigamente tínhamos o conforto de saber que a natureza dispunha de meios técnicos suficientes para transmitir mensagens divinas. Raios, tempestades, terramotos e outros cataclismos, despertavam em todos nós um saudável temor ao divino.

Quando os homens desenvolveram as suas civilizações em termos industriais, a coisa piou mais fino. A natureza afinal era previsível ou pelo menos explicável em termos muito mais favoráveis do que os religiosos. Mas como a culpa continuou a ser algo de importante, as explicações encontradas passaram a indicar dois sujeitos em substituição de (ou a par com) Deus: aliens ou os próprios homens, organizados numa qualquer facção.

Os aliens, apesar do vigor temporal que a sua existência parece revelar, têm demorado muito a cair na aceitação das pessoas, ecoando o percurso histórico da desculpa divina. Quanto aos outros homens, é uma tese sempre popular, dependendo apenas das modas sociais, de modo que relativamente ao globo, os actos da natureza são mitigados de per se.

No entanto, o certo é que passou a haver um sentimento de superioridade no homem, uma certa altivez que, avisam-nos as lendas, religiosas ou não, o céu tem a mania de mandar abaixo com pormenores de malvadez.

O problema em relação a isto, é que tal teima em não acontecer.

As últimas grandes manifestações de existência de algo “não natural”, imputáveis a deuses, santos, aliens ou capitalistas, deixam sinceramente muito a desejar.

Tivemos há pouco tempo, o dia da renúncia do Papa ao cargo. O acto foi de si algo revolucionário, pois é algo que não acontece há cerca de 700 anos na história da Igreja. Desconfio que talvez pela primeira vez na história, a Igreja esteja assim a admitir que o Papa é apenas um homem normal, um representante distante de Jeová, afinal tão falível como qualquer um, etc. Isto se fosse antigamente, mesmo nas antiguarices mais descanhenas, mereceria raios e trovões e terramotos, qualquer coisa “em grande” e “à séria”.

O que tivemos? Um simples raio canalizado inteirinho para os pára-raios no píncaro da cúpula mais alta e central da Basílica de São Pedro no Vaticano.

O efeito foi muito bonito. E prontamente registado nos media para gáudio da civilização inteira.

raio vaticano

Deus 0 – Ciência 1

(porque não passou pela cabeça de ninguém que tivessem sido aliens os responsáveis pelo raio? bom, passou pela minha, mas o peso da Ciência nos meus neurónios já é demasiado grande).

Mas os Actos da Natureza não se ficaram por aqui. Hoje resolveram subir a parada do jogo. Caiu um meteorito de dez toneladas algures na Rússia, ferindo mais de 1100 pessoas. Agora sim, já estamos a jogar a sério.

meteoro rússia

Deus enviou o calhau ou foram aliens a dirigirem subtilmente a sua rota? Desta vez temos a benção de saber que não poderão ter sido outros homens… a não ser que se pense que alguém possa ter inventado um Raio ou Campo atractor de asteróides… mas não entremos aí.

Vejamos a hipótese da explicação divina. Se Deus não ficou contente com a renúncia papal, porquê só agora? porquê a demora? ou porquê só na Rússia, que até é, sei lá, maioritariamente Ortodoxa? mais importante: porque preferiu enviar o calhau matando 400 almas comuns ao invés de o fazer cair num sítio mais apropriado, estilo o Kremlin ou onde quer que Putin se encontre a passear por esta altura?

Não, a hipótese de Deus não convence.

Next!

Os aliens, pensando bem… pode arranjar-se uma explicação técnica para a possibilidade de desviar a rota normal de um asteróide, se postularmos que uma tecnologia pode ser mais avançada que a nossa. Mas as perguntas feitas a Deus são na sua maioria aqui relevantes também. Porquê na Rússia? Porquê só um? Etc.

Talvez para nós a pergunta mais relevante seja, porque raio nada caiu aqui, no Palácio da Ajuda ou em cima de onde quer que o nosso Primeiro-Ministro se encontre? Pelo menos no Ministro das Finanças?

Não, os Actos da Natureza já não são o que eram.

Mas graças a deus, já os podemos experienciar via Facebook.

A evolução tinha de servir para alguma coisa.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s