Uma crónica de sexta-feira

A morte é uma grande niveladora mas sem ela a vida teria muito menos piada. A sexta-feira é um dia que mata a semana de trabalho e dá entrada à pseudo-vida do fim-de-semana. Será que o mundo online das notícias culturais também reflecte um pouco disto? Não que eu tenha sido exaustivo, mas surfei um pouco por algumas publicações de referência e vi muita necro-coisa. Sei que há piores formas de terminar a semana, mas enfim.

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Comecei no separador de cultura do site da Visão. Das últimas e mais recentes 20 notícias, metade são relativas a mortos (um início auspicioso). 7 cadáveres recentes para ser mais preciso, do que se deduz que as mortes em caixa não chegam para satisfazer as necessidades culturais deste conhecido semanário, pelo que alguns rendem mais. Se andarmos um bocadinho para o lado e entrarmos na secção exclusiva do JL, não há obituários, mas fala-se de Joana Vasconcelos e dos Exames de Português, e se é certo que a arte da primeira é capaz de provocar ataques cardíacos a alguém com neurónios saudáveis, também o é que os resultados dos Exames escolares em Portugal estão pela hora da morte.

Já num site como o do Expresso, a cultura parece um pouco mais viva: não há mortos, mesmo que alguns possam achar duvidoso a não inclusão nos obituários das notícias de nomes como Paulo Rocha, Mick Jagger ou Amadeo Souza-Cardoso. Dois zombies e um morto não fazem uma festa como na Visão, mas já servem para uma curta-metragem antes de ir dormir.

Dei uma mirada ao site do Publico e verifiquei que afinal ainda há jornalismo: o único óbito que por lá aparece, o de filósofo e professor José Enes, não é mencionado como evento cultural por mais ninguém (assim como Proust, que apesar de já estar morto, muita gente continua a rezar para que o facto atinja as aborrecidíssimas republicações da Recherche…).

Se nos saltinhos ao lado do Ípsilon e da 2, nada de relevante se aponte, já na parte de cultura do P3 esgravatamos alguns féretros. Madonna continua a provar que enganou a morte artística há muito tempo, assim como Manuel Oliveira que continuamos a constatar ser o realizador do seu primeiro filme, o tal que muita gente diz ser o único de que gosta (talvez por não haver amor como o primeiro, ou porque passar horas à volta de um par de sapatos de cetim não seja coisa para toda a gente). Para além disso, também encontramos o caso curioso do blogger que protesta contra bloggers, essa espécie de meta-suicídio conceptual. Fui espreitar os blogues desse blogger e encontrei num deles a forma mais bonita de elogio ao nosso próprio site através da pouco críptica designação de Orgia das Letras num departamento qualquer com zero artigos, à espera (espero) de nobres contribuições. Fui alvo de uma pequena morte, como diriam os franceses, por a Orgia Literária ter tão solene irmã de armas (as almas porno-literárias têm destas coisas). Por último, fiquei contente por ficar a saber que o único zombie animal português é também o primeiro habitante luso a ir ao espaço. Isto é que é ficção científica nacional!

Retomando a viagem necrológica, encontrei novo morto no Diário de Notícias, o músico J. J. Cale, embora tecnicamente e como se sabe, o DN não possua um separador de Cultura. Está na secção Artes, o que é compreensível, mas não me satisfez totalmente pelo que tentei encontrar o Q… infrutiferamente. Tive de contentar-me com o morto Enes na secção Portugal.

Por fim e já farto de tanto passeio virtual (isto de surfar notícias dá cabo dos rins a qualquer um se feito à base de anestesiante Vodka), dei um salto ao LiV, a presença cultural do Jornal i, onde tive o prazer de constatar a necrofilia geral dos ares culturais portugueses pois lá se falava dos casos internacionais de Amy Winehouse, Le Corbusier e Michael Jackson (don’t ask).

Saí da frente do portátil com pensamentos senão tétricos, pelo menos meditabundos. Ou lembrando o que dizia uma velha piada, com vontade de medir a bunda com uma fita métrica. Em pleno Verão, em plena silly season, e na área da Cultura os media online dão-nos mortes e mortos à dúzia e não há bilhete. Se é verdade que com o 25 de Abril perdemos a vontade de andar de preto nas ruas, o certo é que ele tem durado mais a sair das almas. Ou talvez eu esteja só a exagerar por ser sexta-feira.

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