Os gatos somos nós

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Schrödinger nasceu à 126 anos, morreu à 52 e eu, com 44, também não me sinto lá muito bem. A piorar a coisa, consta por aí que será um qualquer dia internacional da juventude. Isto da passagem do tempo e de como encaramos o envelhecer, tem muito que se lhe diga, embora sejam sempre factos simples de analisar. Envelhecer nunca foi um mar de rosas, mas ultimamente – e ao contrário do que o progresso nos indicou por muito tempo – as coisas não andam a ficar mais fáceis. Pelo contrário. E parece-me muito indesejável e contraproducente este confronto entre a sublimação da juventude e a inevitabilidade da velhice.

A questão não é propriamente nova, mas assume alguns contornos geracionais. Recordo a este propósito que há uns anos, trabalhei para uma Faculdade como administrativo, num edifício cheio de laboratórios onde se fazia muita investigação científica. Por todo o lado se viam jovens e pseudo-jovens pós-estudantes em permanente azáfama intelectual ou laboral, bem como um ou outro chefe de serviço/Investigação com mais uns anitos. E lembro-me perfeitamente da primeira grande pergunta que esta experiência laboral me provocou: onde estavam os velhos?

De facto, e exceptuando os directores de departamentos ou professores catedráticos, não havia pessoas acima dos 50 e picos em lado algum (e mesmo nesses cargos algumas das pessoas eram de idades abaixo dos 50). E se era verdade que estava numa instituição ligada ao ensino, sendo natural alguma predominância de gente nova, por outro lado havia que considerar o facto de a investigação daquela área (generalizemos apodando-a como de ciências médicas) ser em grande medida efectuada no ambiente universitário e público, como era o caso. Ora, pelas leis da vida, as pessoas envelhecem. E supostamente continuam a trabalhar nas suas áreas de aprendizagem. No entanto, elas não estavam visíveis em lado algum. Os que eu vi partir ou sair dali, iam para outros laboratórios, a sua maioria no estrangeiro, para nunca mais se ouvir falar deles. Ou seja, o que me ocorreu perguntar foi: então e esta gente toda quando deixa de ser nova, vai para onde? Continua a fazer investigação? No sector privado? No estrangeiro? Todos estes biólogos, físicos, etc., quando ficam mais velhos fazem o quê? Ficam ricos? Dedicam-se à pesca? Desaparecem?

Continuo sem saber a resposta. Os laboratórios de todo o país estão cheios de gente nova que faz investigação científica, a esmagadora maioria mantida em precárias condições laborais através de esquemas “bolsistas”. Gente nova que é permanentemente posta a rodar e renovada. Mas conforme se vão aproximando dos 40 anos, ou saltam para Investigadores Principais e Chefes de Grupo e Directores de Departamentos ou… tornam-se para todos os práticos efeitos, socialmente invisiveis.

Há nisto uma importante questão geracional: lidamos muito mal com a velhice. Entre os 30 e os 50 anos, parece haver uma insensibilidade geral para com os mais velhos – que é a coisa mais estúpida e idiota que pode haver, pelo simples facto de que, tudo correndo bem, serão estas mesmas pessoas que se tornarão precisamente as mais velhas. Hoje em dia, na maior parte das empresas e à semelhança daquilo que eu via na faculdade, cada vez mais acontece só se contratar gente nova, reformando compulsivamente ou despedindo os de mais idade (mesmo as chefias e as direcções muitas vezes mal se aguentam nos postos assim que começam a ultrapassar a fasquia dos 45 anos e ainda mais a idade oficial de reforma).

Um sistema que favoreça uma reforma laboral menos tardia, resolveria em parte esse problema, mas como bem sabemos, não é este o caso. Pelo contrário, temos uma geração entre os 30-50 anos no poder que tem alegremente aumentado a idade da reforma, promovendo activamente o desemprego de toda a população acima dos 40-45 anos de idade, bem como a destruição indiscriminada de milhares de postos de trabalho. Isto traduz-se em gente que fica com poucos, e cada vez menos, senão mesmo completamente sem, rendimentos. Algo que não é só idiota como atinge um carácter de malevolência socialmente inaceitável. E tudo isto em nome de uma suposta eficiência económica que, para todos os efeitos, não surge, sendo mesmo impossibilitada pelas próprias opções políticas que a esgrimem.

Laboralmente, é cada vez mais óbvio que os velhos estão tanto vivos como mortos, e a experiência governamental provoca-lhes as instâncias da morte tanto quanto pode pelo decair radioactivo do desemprego, pelo corte de reformas, pensões, apoios sociais no geral (e de forma particularmente relevante no acesso à saúde, a consultas e medicamentos). O problema é que para além das pessoas não serem gatos, esta não é uma experiência teórica. As pessoas deixam de ser jovens, envelhecem, passam dificuldades, ficam doentes e morrem.

E um dia seremos todos nós.

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