Um episódio biográfico

Ontem alguns recordaram ser o aniversário de Edmundo Pedro. 95 anos. É uma das muitas personagens portuguesas que combateram os aspectos mais negros da ditadura do Estado Novo (e podem ler aqui um dos inúmeros e importantes relatos da sua vida). Mas o curioso e para aqui relevante, é que Edmundo Pedro foi também, certamente sem o querer, uma personagem fundamental da minha história pessoal.

As memórias de infância valem o que valem, e é possível que haja alguma traição do tempo nestas palavras, mas é assim que as recordo e assim com elas tenho vivido todos estes anos. Aquilo que somos é também a soma daquilo que experienciamos.

No distante ano de 1978, fui um miúdo de 9 anos com o hábito de escrever uns poemas, e que estava em processo de transição temática. Se antes escrevia sempre com destinatários fixos (o meu pai e a minha mãe), nesses últimos tempos começava a abordar outros temas, digamos mais histórico-sociais. O 25 de Abril de 1974 era um acontecimento ainda bastante fresco, arrebatador e omnipresente o suficiente para encontrar caminho à minha veia lírica, assim como temas mais vagos e importantes como a Liberdade. Houve porém um poema específico que me provocou a totalidade da transformação em ser poético. Teve por objecto e título “O Tarrafal” e consistiu na minha reacção visceral a um dos seus elementos mais horrendos, uma imagem que me impressionara imenso quando fizera perguntas sobre o tema: a Frigideira, a cela do isolamento onde dezenas de presos políticos morreram durante a ditadura. Foi com esse poema que eu comecei a lenta e segura caminhada da literatura, uma sombria e complexa tomada de consciência sobre a palavra e o seu poder, e posso afirmar que a partir daí nunca mais fui o mesmo.

Em 1978 muita gente se dedicava activamente à vida política, e em nossa casa não era diferente. Recordo ter participado em muita manifestação, acção política, reunião. Mas para o presente propósito, importa recordar um evento específico. Recordo ir com o meu pai a Alcântara para ouvir falar Edmundo Pedro, que me contavam ter estado preso no Tarrafal. Não sei bem como, mas a certa altura, depois de o velho senhor falar (tinha ele já cerca de 60 anos), todos me encorajaram a levantar e ir dizer o meu poema, a subir ao estrado onde ele estava para dali debitar os meus versos. Com um marginal nervosismo, levantei-me, subi ao estrado e li tudo de uma assentada, lenta e seguramente.

“O Tarrafal

Buraco no chão
Com tecto e janela,
Justiça prendida
(…)”

… ainda recordo o quente rubor nas faces ao terminar, e o espanto de ver o senhor que ainda há pouco estivera a falar das suas experiências, de lágrimas a cair do rosto, mão na testa, corpo dobrado sobre a mesa, ao som das palmas da assistência.

Sempre que penso no que significa a poesia recordo este episódio.

Assim como o seguinte: sei que mais tarde, nesse mesmo dia ou noutro, já não recordo bem, fiz questão de fazer uma cópia do poema e de oferecê-la ao senhor. Entre as várias pessoas que competiam pela sua atenção, lá apareci eu, pequeno e ladino, de folha em punho. Edmundo Pedro aceitou-o com gravidade mas nada disse, voltando-se de seguida para falar com outra pessoa, e eu recordo sentir-me ignorado, a minha breve importância anulada pela aparente irrelevância do gesto.

Sempre que penso no papel do escritor e na sua relação com o público, é esta parte do episódio que eu recordo.

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